Michês e Gringos no Porto da Barra

Há uma crença de décadas que está se tornando cada vez mais comprovada. A de que Salvador é realmente uma cidade em que se “ faz a pegação em qualquer lugar”, onde “caça e caçador” se encontram independente de guetos específicos. Não há hora, dia, momento ou local apropriado para se engatilhar uma boa transa.

Ao contrário do Rio de Janeiro com a sua muito antiga Via Ápia ou do cheio de histórias Parque Trianon na capital paulista, da Redenção em Porto Alegre ou do centrão de Curitiba, conglomerados urbanos onde existem – mais ou menos delimitados – espaços específicos ou ajuntamentos de michês, na cidade do Salvador a coisa não funciona bem assim.

Os palestrantes e a troca de idéias.

Para entender como funciona e todos os pormenores desta cultura da prostituição masculina, ouvimos dois especialistas – os professores da Universidade Federal da Bahia – Maurício Tavares e Edvaldo Couto, que em debate na Sede do Grupo Gay da Bahia no Pelourinho e sob a mediação do antropólogo Luiz Mott, discorreram sobre aspectos importantes desta prática num famoso espaço público e cartão postal da cidade, o Porto da Barra.

Asseguram os doutores palestrantes que por enquanto esta “pesquisa da michetagem no Porto da Barra” é despretensiosa do ponto de vista de uma publicação específica. Mas no futuro e acrescentada de capítulos outros como a “prevenção das DSTs/AIDS, violência e o uso de drogas,etc” entre os gringos e os prostitutos, haverá sim, a possibilidade da transformação deste estudo em livro.

Mesmo porque, em se tratando da mais antiga profissão do mundo, o tema da prostituição sempre exerceu fascínio e se trata, já que o nosso assunto aqui, envolve “nativos da terra e estrangeiros apaixonados pela Bahia” efetivamente de uma grande contribuição acadêmica.

No começo – bem nos idos dos anos 80 – os autores da pesquisa se inteiraram da literatura existente, tipo as matérias de revistas como a extinta Suigêneres, as indicações da bíblia gay internacional o Guia Spartacus, da revista “Zero” da Espanha – que especializada, tem até tem coligido imagens e sacado fotos e até citado alguns destes “rapazes prostitutos” do Porto da Barra sem que os mesmo se dêem conta de que suas caras circulam na Europa. Ou mesmo no trabalho do escritor argentino Nestor Perlongher autor do livro “O negócio do Michê”, depois foram a campo.

Ambos residem no bairro da Barra e há poucos metros da praia em pauta. A amizade, o chegar junto e o “furar o bloqueio” com os michês vem muito da simpatia e da descontração de ambos – tanto o Maurício quanto o Edvaldo – são super agradáveis e bastante sedutores nos sorrisos e maneirismos. Tanto que, o próprio Maurício disse ser conhecido entre alguns prostitutos como “ o professor” pois volta e meia – dada a tamanha confiança que passa – estes lhe fazem perguntas sobre trivialidades ou coisas sérias das quais não tem conhecimento. Como também são – os pesquisadores – íntimos de alguns dos gringos que se utilizam dos serviços destes baianos do Porto da Barra.

Uma curiosidade: “Negociadores de Afeto” é como o prof. Maurício Tavares os entende e trabalha a questão e já para o mestre Edvaldo Couto a visão é de “Caçadores de Gringo”, os gringos representam, pelo menos em alguma projeção de futuro destes homens do Porto da Barra o “ ideário de um próspero amanhã”.

Na reunião do GGB no dia desta palestra não tínhamos nenhum michê presente mas um outro exímio conhecedor da matéria “prostituição masculina” o escritor, estudioso e também professor universitário Ricardo Liper e estrangeiros do Peru e um casal binacional o alemão Reinald – que fez algumas intervenções – e o seu jovem companheiro um cabeleireiro da Calçada.

Como funciona a Michetagem no Porto da Barra.

Às vezes a gente pensa que sabe muita coisa, mas dá com os burros n’água quando o negócio é sexualidade. Tudo é muito relativo e não há conceitos nem identidades que não possam ser mutáveis. Tal como sentimentos em que cada qual tem os seus, os michês observados no Porto da Barra também tem diferenças – ou pelo menos – assumem identidades sexuais diversas. Por exemplo, quase nenhum, vou logo no popular, mesmo “dando a bunda e chupando pica” se assumem como gays. Homossexuais afirmativos que comentam e agem propalando a sua condição gay não são muito apreciados no meio. Muitos até destes prostitutos nem se acham gays, mesmo transando e vivendo às custas de outros homens.

Michês gays com certa afetação e trejeitos femininos – ouvimos nesta palestra – que sem nenhum problema até seriam bem requisitados por estrangeiros, mas não são muito comuns no reduto do Porto da Barra, embora existam alguns que transitam naquela área.

Estas práticas sexuais “passivas” não são muito comentadas entre os garotos pois segundo os mesmos, deploram os serviços prestados e os desqualificam entre seus pares. Na verdade todos se dizem “comedores” e que dão mais de uma na noite e nunca brocham, etc.. Se mostrarem virís é condição sine qua non para se auto- valorizarem e terem maior status. Há muita fantasia de parta à parte. Como também raros assumem que fazem “programas”. Eles na realidade negociam “afeto” e isto é diferente e a gente vai ver mais abaixo como este comércio é feito

“Negociadores de Afeto” do Porto da Barra

O circo da fantasia é mais ou menos assim: Quem pode ter barriga, ser velho, feio ou asqueroso é o cliente, michê do Porto da Barra é quase sempre esguio e está sempre em forma. Afinal como disse o prof. Edvaldo Couto “dinheiro levanta cacete”. Tesão é money no bolso. Sorriso, um pouco de esperteza, cortesia e alguma subserviência são ingredientes que nunca faltam entre caça e caçador. Para estarem desejáveis e sarados. Há inclusive equipamentos públicos de ginástica na praia em que muitos deles passam o dia inteiro se exercitando. A murada da praia apelidado de “sofá da Hebe” em que todos sentam ou encostam é passarela operacional da pegação. Palco das exibições e das abordagens.

Dia de chuva e sem praia é uma desgraça para estes profissionais do sexo. Significa não se mostrar e não ter a chance de vir a conhecer o pé-de-meia, a poupança ambulante que o manterá pelo menos por um bom tempo. Uma curiosidade aos desavisados ou aos recém chegados – a Praia do Porto da Barra não tem grande extensão mas é dividida por territórios específicos e cada pedaço tem a sua tribo específica – há um trecho para turistas hetero e as famosas “caça gringos”, tem outra parte a mais próxima do forte de Santa Maria mais dedicada ao pessoal do “fumacê” e ao longo da mureta e abaixo da escadaria e próximo ao Marco do Descobrimento, aí sim é a área hiper friendly onde há a predominância de gays e de michês. Uma dica: Você vai logo sentir que está no ponto certo quando ver – numa das sextas ou sábados – um som alto vindo de um carro estacionado entre módulo policial e a praia do Porto tocando axé ou o “arrocha” e muitos, mas muitos moleques de sunga rebolando e uma biba por perto felicíssima pagando cerveja pra todo mundo. É aí, pare fique por perto o observe o ritual.

Pode ser um italiano, um americano ou um espanhol. Sendo estes últimos os mais generosos. E a coisa é assim – você finge que se esconde e eu finjo que não te vejo – o michê esperto não vai logo com muita sede ao pote. Vai cozinhando o gringo em banho Maria. Pedir dinheiro logo no primeiro encontro é roubada e pode espantar a “mina de ouro”. É mais rentável laçar o gringo e seduzi-lo. O negócio é envolver o estrangeiro com afeto, muito carinho e préstimos de toda natureza. Lhe servir de compainha, lhe atender os desejos sexuais e aos poucos chorar miséria. Levá-lo para conhecer a casa onde vive. Apresentar-lhe a família. Convencer o Gringo a pagar um curso de inglês, a comprar o material de construção para “bater a laje” da casa. “Na realidade o mais lucrativo é posar de namorado. Há uma chance inclusive de sair do país e vir a se dar bem lá fora. Não são poucos os casos de michês que viajam para fora do Brasil. Gente que nunca foi a Aracaju derrepente está em Amsterdã, Barcelona ou Paris, etc..

Por exemplo, tem michês que ganham o prêmio máximo – além da televisão, do super celular, da laje batida, do curso de inglês e de informática, ganham casa e comida na Europa – chegam a ir morar com o gringo, mas não resistem e transam com o amigo da “galinha dos ovos de ouro” e são deportados sumariamente. Retornam, contam vantagem por algum tempo e logo voltam a cena no Porto da Barra e já engatilham outras paradas, turista estrangeiro é o que não falta.

Os cyber-cafés do bairro da Barra tem sempre destes rapazes que, mesmo antes da chegada do gringo na terra, estratégicamente já jogam pesado e preparam o terreno. Eles se comunicam – muitos tem uma noção mínima de informática que lhes proporciona a sapiência do passar um e-mail e não se enganem, que a mesma mensagem passada para um gringo será a mesma e a padrão para dezenas de outros, coisas do tipo: “ … estou morrendo de saudades; quando você vai voltar?; estou mal de grana, a gente lá em casa tem que pagar a operação da minha mãe ela tá com pedra nos rins; eu quero fazer um curso de inglês; a chuva derrubou o barraco que a gente vive eu e meus irmãos estamos desabrigados;etc..” A coisa é tão bem feita e repetida à exaustão que não há cidadão de primeiro mundo que não se sensibilize. Deve bater um sentimento de culpa tão grande nos abastados, afinal a miséria do terceiro mundo sempre foi algo que alicerça políticas públicas e movimenta milhões em manutenções e criações de ONGs . Então alguns sortudos michês já conseguem se mantém muito tempo antes da chegada do verão e de aparecerem os gringos usando deste expediente que dá muito certo.

A escolha e a corte pode ser algo prazeroso demais. A fama dos tantos “Caçadores de Gringos” e dos nossos “Negociadores de Afeto” já chegou por lá. Como se não bastassem publicações especializadas. A Internet facilita em muito a compreensão e o entendimento desta prática na cidade do Salvador. Há várias páginas e dezenas de sites que mostram o homem brasileiro de maneira muito, mas muito desejável. Profiles de toda natureza, com fotos e tudo podem ser consultados pelos estrangeiros mesmo antes de chegar à Bahia. Pode não ser especificamente de algum dos rapazes do Porto da Barra, mas seguramente da Salvador como num todo e onde o apelo erótico dos gostosos baianos não falta.

Trocar atenção, carinho e ter um companheiro por perto às custas de um tênis da Nike, de um novo celular, de uma viagem ou um aparelho de DVD não é nada para essa gente endinheirada que vem aqui para fazer esta espécie de turismo e que se dão muito bem. E depois o gringo que se “envolve” com um dos michês e sai com o mesmo pela cidade, tem também aquele “guia de turismo” pois quase todos conhecem como ninguém os supostos locais de predileção dos estrangeiros. Ganha uma certa segurança, estar acompanhado com um nativo fica o gringo menos vulnerável a lances marginais do tipo “levarem a máquina fotográfica ou lhe baterem a carteira” etc… E tem uma coisa que aprendi nesta palestra super interessante, os garotos que fazem michetagem na Barra, aprendem muito rápido, são espertos e captam os gostos e as preferências dos gringos. Muito rapidamente se tornam íntimos.

Há gente de fora que chega à Bahia como uma visão muito deturpada. Comete pequenos equívocos e acredita mesmo que há uma permissividade irrestrita e que tudo é possível em se tratando dos homens locais. Alguns gringos não resistem. Tem até afoitos estrangeiros que não se intimida nem diante de policial fardado, e há os bons de papo que até consegue fazer o babado com algum maludo da gloriosa PM. Mas a verdade é que o gringo não necessita se dar ao trabalho de “caçar”, ter que abordar algum rapaz. Normalmente neste comércio o “caçador” é sempre o mais perspicaz e chegará junto da presa sem delongas. Ele achará a maneira de laçar o estrangeiro. O michê tem toda uma cultura ou um modus operandi que costuma não falhar nestas horas. Mais das vezes um meio caminho andado é estampar na cara um sorriso. Causa boa impressão e gera confiança.

Algumas observações desta Michetagem na praia do Porto da Barra:

1 – O objeto mais desejado atualmente pelos michês é sempre o mais novo modelo de telefone Celular. Por muito tempo foram os tênis originais da Nike.

2 – Cai o mito de que michê não beija na boca. Todos tem as suas próprias identidades sexuais e as práticas entre eles, dos michês, variam muito. Mas via de regra e já que os “ encontros” funcionam como uma espécie de “investimento ou pé-de-meia”, há não só beijos como muito prazer, afeto e carinho nas relações. Afinal de contas parecer verdadeira e natural a conquista é a certeza da durabilidade das benesses deste comércio do afeto e sexual.

3 – Embora pouca nesta população de michês e de gringos do Porto da Barra, a violência existe e foi citado na palestra um caso em que um bissexual italiano, casado em seu pais, reservado e muito discreto que ao se envolver durante uma temporada baiana com um destes michês teve o seu passaporte seqüestrado e foi chantageado por algum tempo. Teve que pagar muito caro pelo resgate do documento. Temendo evitar escândalo a vítima não avisou a polícia.

4 – Muitas vezes o gringo não sabe diferenciar um michê de um morador de rua. Às vezes são vistos com mendigos e gente bem jovem que integra a população de rua e que superlota as imediações da praia da Barra.

5 – Atualmente em todo o circuito da Barra-Ondina não há restrição alguma a que estrangeiros subam acompanhados ou levem rapazes aos seus quartos nos hotéis ou pensões. Muitos destes rapazes dada a constante presença nas imediações já se tornaram conhecidos dos donos e do pessoal das recepções.

6 – Roubos ou furtos da natureza de “bater a carteira” ou “levar o relógio do gringo” durante as primeiras transas quase nunca acontece. O gringo é visto como um investimento rentável, não compensa roubar uma carteira com poucos dólares se o garoto tem a chance a arrancar do mesmo muito mais em presentes e mordomias à longo prazo.

7 – Os prostitutos do Porto da Barra vendem paixão e sedução. A imagem que passam é a do garoto simples, risonho, do nativo que joga capoeira, que está sempre prestativo e convencem o gringo de que são muito necessitados e que estão apaixonados. O gringo é envolvido também pela questão social – pela “pobreza” apresentada e que vem junto com o “pacote dos serviços” que eles vendem.

8 – Muitos destes rapazes, quando o gringo volta pra casa, ainda continua sendo sustentados por eles, que lhes manda dinheiro em gordas mesadas mensais.

9 – Alguns dão a sorte de ganhar uma boa grana quando a estadia do gringo é curta na cidade. O soldo de um final de semana é gordo, mas também gastam muito rápido o que ganham e com futilidades ou coisas que impressionem os demais michês.

10 – Programas com brasileiros não são atrativos para os michês do Porto da Barra. Quando muito pode rolar um sexo ocasional com o toma lá da cá pré definido. Não há perspectiva alguma de bons resultados financeiros para os tais prostitutos.

11 – Para o estrangeiro não há tanto problema se o michê tem traços femininos ou possui maneirismos ou afetações. Já para alguém do Brasil transar com michê “bicha” não cai muito no gosto de quem procura tais serviços.

12 – Em média segundo depoimento de alguns gringos um programa com prostituto na Europa sai não menos que 300 euros, aqui com a conversão e o câmbio, dá pra pagar com mil reais um infinidade de programas ao custo médio de 50 reais como é cobrado nas casas de massagens em Salvador.

13 – Muitos gringos voltam aos seus paises e contam das facilidades do sexo com rapazes em Salvador e por isto a procura por apartamentos para alugar por temporada subiu muito no bairro da Barra. Gays estrangeiros formam grupos e na alta temporada, quase sempre os mesmos, retornam a Bahia sempre trazendo outros tantos que se tornarão os futuros “caçados” dos michês.

14 – Os rapazes não se vêem como “garotos de programa”. Os gringos nas suas vidas são os namorados que bancam todos os custos, que os provêem nas necessidades e que estão sempre dispostos a comprar algo para eles. Atualmente os espanhóis são os mais generosos. Os italianos durante muito tempo foram ótimos e de mão aberta mas nos últimos tempos estão mais “escolados” e andam com pouco dinheiro para gastar.

15 – Negros e mulatos são os mais preferidos pelos estrangeiros .

16 – Gringos que saem com os rapazes e que apontam ou dizem a outros gringos da passividade do mesmo “que o rapaz dá a bunda” não vale à pena. Queima o filme do michê e logo os outros michês sabem que aquele gringo é sujeira. Pode se tornar persona non grata na área. Todos os garotos querem ser vistos como “ativos”.

17 – As mesmas histórias de miséria, de pobreza e de necessidades na família podem ser repetidas para dezenas de gringos diferentes abordados num único dia. Assim como nos e-mails e contatos extra pegação.

18 – Qualquer um estrangeiro é passível de ser “caçado” decrepitude ou beleza não são componentes importantes para os michês. Assim como idade de quem compra afeto não faz a menor diferença. O que importa é a generosidade do gringo.

19 – Quase sempre são todos exagerados, fazem um programa por 10 reais e dizem que ganhou 100.

20 – Os melhores dias para a abordagem dos michês na praia do Porto da barra é sempre nas sextas-feiras e aos sábados. Fuja do domingo na Barra, a praia fica superlotada de gente que não tem nada a ver.

Pra terminar quero lembrar que todo o texto exposto acima é tão somente e apenas considerações e observações. Foram ouvidas e anotadas numa palestra e podem até conter algum equívoco de interpretação. Não carregam preconceitos de espécie alguma. Assim como não há julgamentos morais com relação a tal prática. As informações contidas aqui não foram ou são no momento alvo de publicação especializada e o seu conteúdo não ratifica verdades absolutas ou irrefutáveis. E o grupo de michês estudado é apenas de um trecho da orla de Salvador. Outros exemplos, como os michês da Praia do Cristo, podem apresentar outras características e diversas peculiaridades.