Presente Pasado e Futuro com o Vidente Jorge

“E o palhaço o que é? É Ladrão de mulher!” . E a fama dos circos não era folclore. Tal como os ciganos, havia um o mistério que se transformava em encantamento. Uma magia igual ao canto dos cisnes . Era o fascínio que estas trupes circenses ou de nômades “gajons” exerciam sobre os que tinha a vontade de mudar de vida, mas a quem faltava a coragem e por isso, definhavam sob o medo terrível do desconhecido. O circo era um sinal de liberdade e simbolizava uma tentação sem limites. Ainda que algumas vezes, “Cigano ou circo, donzela em perigo”.

E foi assim, que aos 17 anos e no remoto 1947 – depois dos tantos surtos e possessões inexplicáveis. E de amargar duas internações num asilo de loucos da outrora Natal – recluso pelo próprio genitor, que vinha a ser o alfaiate do governador José Augusto Varela e a mais famosa agulha da “cidade do sal – Macau” no Rio Grande do Norte. Que o rapazola, magrinho, loirinho e de olhos azuis chamado Francisco Georgiano Diniz aproveitou a chegada do elenco do renomado Circo José Mariano e escapulindo por uma das janelas, numa noite de calor infernal, se juntou a aqueles artistas fascinantes.

No circo, fez de tudo um pouco e sempre muito esperto, logo se identificou com o malabarismo e mais que isso, com os desafios dolorosos do contorcionismo. Seu corpinho parecia não ter divisões. Tinha as juntas maleáveis e era bastante elogiado pelos veteranos mestres polacos. Leve como uma pluma, era atirado de um lado para o outro ou suspenso em cordas ou pronto para os saltos dos mais ornamentais. E tudo ia maravilhosamente bem naquele mundo de sonhos. Uma das suas preciosas recordações é ter visto a Natal tomada pelos americanos no durante a guerra – “eles eram garbosos em seus uniformes e educados para com as mulheres, abriam-lhes as portas dos carros e lhes beijavam as mãos. Falavam uma língua estranha que só tempos depois soube se chamar um tal de inglês. E nos dias em que não tinha espetáculo no circo, eu corria até a Praça dos Americanos, a Augusto Severo, somente para vê-los passear”.

Este é o começo de uma página histórica que é a vida do vidente Jorge do Pelourinho da Bahia como gosta de ser reconhecido. O seu destino estava escrito nas estrelas e é com ele que conversamos agora.

As internações num hospício numa tenra idade não lhe causaram mal?

Senti muito, mas compreendo e perdôo meu pai. Eu tinha muitas visões e convulsões, falava em línguas estranhas, via acontecimentos catastróficos e tinha premonições. Mas nem eu e nem os outros sabiam o que estava acontecendo comigo. Sei que causava medo e terror nas pessoas à minha volta. Até que tentaram um exorcismo, mas não tinha jeito. O Padre não deu jeito. A medicina local da Macau naquela época era muito atrasada e meus familiares, me achando louco aos 13 anos, me levaram à capital para ser internado num hospital de alienados. De onde eu fugia ou tinha alta, porque o meu problema não era loucura. Anos depois a clarividência e um dom especial se tornaram parte de mim e de maluco, eu não tinha nada. Uma verdade, que um pai de santo de Aracajú, já tinha dito aos meus parentes sobre mim: “Este menino é médium!”

O mundo das artes sempre o fascinou não?

E como! Quando o Circo “A Estrela do Norte” do José Mariano chegou a Macau em 1947, eu me cai de amores. Senti uma vontade enorme de ser artista também. Eu queria ser visto, vestir aquelas roupas extravagantes, usar aquela maquiagem carregada e ser aplaudido. Este era o meu sonho aos 17 anos. Tinha uma ânsia de luzes sobre mim. Enfim, não existia televisão e pra gente daqueles confins de mundo, o circo era a magia e significava o reconhecimento – o cartaz e a fama – que tanto se corre atrás hoje. Eu fiz meus contatos e na hora em que a trupe ia deixando a cidade, pulei pela janela, peguei a minha malinha de couro – enquanto outros fugiam com as trouxas na cabeça – eu não, pois tinha uma malinha de couro cru com fivelas douradas. Sabe, até hoje tenho fixação por malas e como viajei muito e conheço o Brasil de cabo à rabo – tenho uma coleção de bolsas, malas e necessaires de fazer inveja. No Circo eu era uma espécie de mascote – todos gostavam de mim, mas existia uma disciplina rígida, horários pra tudo e meus mestres polacos exigiam muito de mim – horas e horas de treinos em contorcionismo e de ajuda no trapézio. Fui e me perdoem a falta de modéstia, um malabarista notável! Graças ao meu talento também trabalhei em outros circos como o Garcia e o Nerino. Sempre coloquei amor nas coisas que faço e todos notavam isto

Você também foi dançarino?

Isto foi em Recife. A “Veneza Brasileira” era uma potencia em movimentos culturais. E quando me deparei e recebi o convite da Compainha de Teatro e de Dança Folclórica Internacional do coreógrafo Raul Levit, aceitei na hora. O fato de trabalhar com o corpo e de ter vindo do circo, ter sido acrobata me ajudou muito nesta nova fase da minha vida. Eram tempos das tournets e dos espetáculos que percorriam cidades e capitais com coristas e grandes números teatrais. Lembro de algumas das nossas apresentações que fizeram grande sucesso “Noites de Alegria” e “Festa das Mil e Uma Noites”.

E o espiritual? O verdadeiro chamado da vidência, quando aconteceu?

No circo, num dia em que adoeceu o cartomante, me botaram o turbante na cabeça e me sentaram numa mesa pra fazer consultas. E o povo ia chegando e eu, nem mesmo sei explicar como fazia, ia dizendo coisas que via na bola de cristal – iam me aparecendo as respostas para todas aquelas perguntas. Julgar neste momento, depois de dezenas de anos se acertei ou não, é outra coisa. Só sei de uma coisa, nunca estive só – os meus guias e a minha ajuda espiritual me cercava todo o tempo – jovem eu não conseguia canalizar toda aquela energia recebida e às vezes era desgastante ser o veículo da palavra divina. Até que anos mais tarde, em 1973 e já mais maduro na vidência, a Yalorixá maior da Bahia, Mãe Meninha do Gantois me disse “ Jorge meu filho, você não precisa fazer nada tu é abricum e confirmo – Xangô e Yansã – mas é de nascença, segue o teu caminho” .Sempre fui católico praticante, mas como vidente nato tive até bem pouco tempo, as “visitas” do Zé de Aruanda, não sei porque ele nunca mais baixou…bom, estas coisas é o além que decide.

E assim surgiu o “Maior vidente da Bahia”.

Bem, assim por muitos anos fui intitulado pela imprensa. Não nego que tenho clientela fixa de quarenta anos e gente de outros paises e políticos que se consultam comigo. Cheguei no Pelourinho em 1952 e logo cai nas graças das verdadeiras rainhas da vida mundana: as grandes cafetinas tipo Maria da Vovó, Sinara, Anaila, Marcelles, Arlette e Madame Schicas – as francesas que tinha rande vouz na Barroquinha e Ladeira do Pax. Elas faziam tudo girar em torno do seu comércio no Pelô. E a regra era nunca acordá-las antes da uma da tarde e não cobrar mais que 5 réis pelo atendimento. Sou do tempo em que havia uma invasão de marinheiros ávidos por sexo na área e para diferenciar os tantos prostíbulos das residências as tabuletas às portas diziam “Esta é uma casa de familia” favor não importunar. Eu sempre tive uma capacidade enorme de memorização e mesmo chamado às pressas por aquelas “damas de luxo” e de madrugada para por as cartas ou ler na bola de cristal, já sabia de antemão que o mal era o de amor e que o “homem da vez” era o que faltava no coração daquelas maravilhosas mulheres do prazer e cheias de dinheiro. Ganhei money e fiz meu pé de meia atendendo as tais prostitutas – que então tinham valor – eram como estrelas de cinema, se cobriam de jóias e usavam perfumes importados. Comprei minha primeira casa aos 23 anos, fiz um pequeno patrimônio que me dá tranqüilidade até hoje e dizem até que virei personagem de Jorge Amado, só não sei dizer ao certo de que livro.

E esta elegância toda? Vem de berço?

Sempre vi meu pai varar as madrugadas fazendo ternos para gente de dinheiro e não tínhamos nada, pobrezinho, o que eu mais sonhava era ter um relógio. Aquele adorno de pulso me enchia os olhos e me punha ambicioso . E em Salvador já próspero e com clientela renomada, pude freqüentar lugares chiques como o Cabaret da Meninas, os Tabaris e a me vestir na Slooper e no Adamastor.

Eu circulava pela Rua Chile com a desenvoltura de um respeitado mestre das ciências ocultas. A astrologia estava em alta, os signos e os vários oráculos eram as pistas para se “conhecer o futuro” e não havia quem desacreditasse do destino. Todos queriam conhecê-lo. Posso dizer, que antes de fechar algum negócio ou de tomar uma decisão importante, atendi a muitos industriais e políticos de prestígio desta velha Bahia. O Osmar Cardoso difundia nacionalmente a crença pelas ondas do rádio e a grega Madame Beatriz não representava concorrência para mim, mas tinha lá a sua pecha de expressão. Então um belo dia fui convidado para ter meu próprio programa na Rádio Excelsior da Bahia – a potência da Guedes de Brito – e eu respondia aos ouvintes as perguntas mais óbvias sobre dinheiro, amor e doenças. Dava conselhos e atuei como astrólogo convidado nas rádios Timbira do Maranhão e Borborema em Campina Grande.

Você sempre teve uma queda por blocos de Índios e foi destaque, como foi esta fase carnavalesca do Vidente Jorge?

Desfilei como Destaque para o Presidente Médice na Associação Atlética em 1975/76. Fui muito amigo do José Freitas – o cabeleireiro conhecido como “Bolinha de Cristal” e de tantos outros como o Borges e o Maia que me faziam ou me sugeriam deslumbrantes fantasias, como também do Evandro de Castro Lima, um ícone de todos nós. Fazíamos ponto na residência desta fantástica mulher, rica e carnavalesca de primeira Nilcéia Campelo e de lá em fantasias exuberantes saíamos aos bailes dos grandes hotéis, onde muitas vezes éramos carinhosamente recebidos, como por exemplo, pelos cavalheiros franceses Hugô o gerente e Etienne o tradutor e anfitriões do Hotel da Bahia.

Comecei a brilhar nas escolas de samba tipo “Filhos do Tororó”, depois que estas acabaram parti para blocos de índios, tipo os Apaches do Tororó e o Comanches do meu grande amigo Jorge Comancheiro….dei sorte porque todos foram campeões. E em cima dos carros alegóricos eu dava tudo de mim.

“As cartas não mentem jamais” Isto é sério?

Não sei para os outros, mas para mim elas nunca mentiram. Vale muito da interpretação do médium. Desconcentrado e num dia de mal humor a coisa pode degringolar. Por isso é sempre bom se saber com quem se está consultando. O meu consultório espiritual vive cheio, você mesmo viu e teve que esperar entre a minha clientela para fazer esta entrevista. Cartas do Tarot, Baralho Cigano, Búzios ou a Bola de Cristal, seja qual for o apetrecho, termino por saber os resultados, agora dizê-lo ao consulente é outra coisa. Há um meio termo entre uma cruel e nefasta verdade à ser dita: o aconselhamento. O faço muito bem. Não sou e não estou aqui para destruir sonhos, por em risco a vida alheia ou trazer a infelicidade aos lares ou acabar com relações amorosas. Não se muda o destino, não há como fazê-lo diferente e ao nosso agrado. O negócio é ter paciência e aceitar os desígnios de Deus com resignação. A sorte no amor a possui quem se despoja do egoísmo. Muitas das consultas giram em torno das perdas e dos danos acerca do afeto. Me desculpem, mas o amor não existe, o que chamam de amor é um monte de conveniências de parte à parte e quando os interesses acabam, a melancolia, a depressão, o ciúme e o ódio se apossa das pessoas. Vejo isto todo dia no consultório e por isto, repito que “não faço milagre, não tenho a capacidade de mudar a vida de ninguém e muito menos transformo o caráter de alguém. Sou sensitivo e não psicólogo ou médico. Santa Bárbara e o meu São Jerônimo das minhas devoções estão comigo e não me deixam vacilar. Ir além das minhas limitações, eu não posso e nem devo”.

Hoje o Professor Jorge tem muito a contar?

Tenho sim, cheguei num Pelourinho rico e residencial, o vi decair a curtiço, resisti no Bairro e fiz a minha vida e a prosperidade aqui. Nunca tive doença séria ou dor de cabeça com dinheiro. No amor fui sempre seletivo e direto. A quem eu escolhia, dava o meu cartão e dizia, vamos? Adoro um sarapatéu bem feito, uso vermelho porque a púrpura é a cor dos reis e branco no dia á dia do trabalho. Adotei duas filhas maravilhosas que me respeitam e a quem tenho amor, sou avô e como nunca tive medo da morte e sou organizado em tudo, tenho vários pijamas e travesseiros para ter o conforto numa cama de hospital se for necessário e já mandei fazer um jazigo na Ordem Terceira do Carmo no Cemitério das Quintas. Tenho meu mausoléu pronto com o epitáfio “Aqui Jaz o Jorge Vidente do Pelourinho”. E o meu conselho final? Claro e bem simples: “Se conformem com a vida e não tenham dúvidas, o destino já vem traçado, agora complicações e problemas, as pessoas mesmo criam. Ninguém é de ninguém e só Deus é o poderoso, ninguém mais” . Atendo todos os dias em horário comercial na Rua 03 de Maio n. 11 – Pelourinho/ tel. 71 322 7278 . Marque a consulta e saibam, as “Cartas não mentem jamais”.

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