“Não foi como primatas a riscar as paredes das cavernas ou espelhado no desesperado preso que riscava em traços, os miseráveis dias do cativeiro, mas tatuamos no muro mais próximo, o teu coração flexado! Fora este o consentimento pra começar a te amar” ou então “Comecem a dizer que não e nós dizemos, sim! Arrotem o seu poder sobre nós e te damos o troco, cuspimos em você! Te apagamos do nosso medo e te rabiscamos nas paredes. Tem sempre um B pro bem e um M pro mal ou se preferir o C da tua covardia”.

Como nem tanto ao amor ou nem tanto à guerra, o certo era que os bons motivos não faltavam. Um deles era a grita do nosso inconformismo. Afrontar e contradizer. Não queríamos de modo algum desperdiçar muros vazios ou ignorar um out door convidativo. Recusar espaços visíveis? Isto não. A paredes e os muros estavam lá e pareciam nos desafiar.
Em Salvador, o palco das pichações homossexuais do Grupo Gay da Bahia nos primeiros anos da década de oitenta – era a cidade que presenciava o surgimento de um coletivo diferente. Uma entourage de homens homossexuais orgulhosos, que respondiam a chamada com um sim entre os demais cidadãos. Eles precisavam dizer: cheguei, sou gay! E pronto, lá estava o rabisco na parede com a insígnia da nova ordem!

Esta pichação “Cheguei, sou gay” feita com colorget preta, foi um dos primeiros sinais da existência pública do GGB. É até possível que alguém tenha se inspirado na filosofia punk dos anos 70 para ter a idéia de sair riscando muros, mas isto não tem importância, o certo é que essa desafiadora frase estava estampada numa das paredes, da mais celebrada casa de espetáculos da Bahia. Custou muito à ser apagada e figurou durante anos ao lado de outra inscrição feita por algum admirador da “freira Dulce”. O barato da coisa era fazer os transeuntes ou a gente do ponto do ônibus, numa das esquinas movimentadas do Campo Grande, o coração da capital baiana enxergar – querendo ou não – o slogan pulsante embutido no bordão “ Gays chegando aí”.

Soava em 1984 como algo assim: vão se preparando que os gays agora vão fazer a história. E aquele ano foi bacana para uma série de feitos gays. Afinal estávamos no Ano Gay Internacional decretado pelo ILGA e aquela data comemorativa para a militância baiana não passaria em branco. Uma campanha publicitária do hoje extinto Jornal da Bahia conclamava “Faça alguma coisa. Você é alguém que pode mudar a história” então imagina se nós não íamos aproveitar a oportunidade? De um instante para o outro nasceu flores e a referência ao ano festivo de 1984.
As tais pichações nos serviram em muito em determinadas ocasiões. Eram instrumentos de defesa em nossa guerra contra os ataques insanos da homofobia.

Foram muitas as ocasiões de revide, mas cito duas das mais lembradas. Quando uma igreja evangélica nos foi denunciada por rotineiramente crucificar-nos em seus sermões, incitando seus fiéis a repudiarem os gays e as lésbicas. Pichamos os seus muros com a mensagem didática e conciliadora, ou se entenderem diferente, beligerante e ferina! “Respeitem os gays!”, “Davi amava Jônatas”.
Como em tais idos não havia uma cultura hip hop, sequer outras assemelhadas ou a exarcebação do grafite e muito menos, a inclusão específica de tal ato numa legislação de crime ambiental. Quiçá a compreensão do engatinhante entendimento do que seria o dito direito difuso para tais ações em equipamentos públicos, talvez até tivéssemos sido comportados demais. Perdido oportunidades maiores de deixar a nossa marca do “cheguei, sou gay”. Ainda mais se comparados com os desafios e os limites quase insuperáveis dos pichadores contemporâneos.

Mas as nossas pichações podem ter salvo vidas. Havia a mais famosa de todas as inscrições. Aquela que sinalizava as portas do inferno. Lá pichamos os muros, a entrada e as paredes imundas com as grandes frases de alerta: “Cuidado Perigo”, “Violência Policial”. Isto num banheiro público que existiu ao lado da Igreja da Barroquinha, demolido posteriormente e que situava-se no hoje projetado Coliseu das Artes da Lina Bo Bardi. O tal sanitário público era um horror. Uma fedentina miserável decorada com vasos e mictórios quebrados, sem portas e sem lâmpadas [dizem até que alguns bichas quebravam todas para terem o ambiente noir pra fazer o fuc fuc]. No melhor da festa chegava a polícia, e a porrada corria solta.

Não nos bastava orientar e informar da violência do Banheiro da Barroquinha, aquele tipo de homossexual da surdina e do breu daquela toilet arapuca se mostrava arredio às nossas reuniões e muito menos a dar ouvido a gays militantes. Talvez pensasse que estávamos ali pra jogar areia no brinquedo deles ou espantar os bofes botando medo em suas cabeças. Mas tomamos a dianteira – em favor da vida e tentando dar um basta em tanta desgraceira – pichamos tudo. Era uma forma de alertar os incautos do perigo e de inibir os policiais na sua sanha sangrenta.

Aquelas marcas nas paredes, muros e out doors eram o embrião de tantas coisas que estavam por acontecer. Tinham para a gente, jovens gays, a magia de um hieróglifo que esconde segredos. O deciframos ao longo dos anos. As conquistas vieram e bem ou mal, mais homossexuais saíram às ruas e mostraram a cara. Mais gente disse sim à nossa chamada. Aquelas pichações eram o amém da coragem de mostrar que o “cheguei, sou gay” vinha para ficar. E ficou mesmo!

