WELLINGTON “ESPERANÇA” ANDRADE – O LIDER GAY.
O Fundador do DIALOGAY de Sergipe nos fala da sua luta e tragetória..
Por Marccelus Bragg
A Palavra do Lider Gay sergipano: Wellington “Esperança” Andrade, do Dialogay.

Nativo orgulhoso, o Wellington “Esperança” Andrade, 50 anos festejados muito recentemente, é aquele cara que tem fôlego sobrando. Não nos esqueçamos, ele é um espírito indomado do “rio dos siris” e é bom vê-lo, como um tótem Tupinambá, do pequeno notável Sergipe, estado único e espetácular.

Folheando algumas páginas dos feitos de Wellington Andrade, vamos dar de cara, com singulares atos de bravura, e creiam, frutos da coragem deste aracajuano. Em idos passados, lá no finalzinho dos anos setenta, o irriquieto Wellington já se engajava e ousava. Naquela Aracajú provinciana e cheia de medos ao afrontar certas convenções retógradas, ele se uniu a um núcleo suigeneris, daqueles tipos “feitos pra apanhar e pra cuspir”. Os ditos e rotulados, de “mulherzinhas”, que tinham um encontro marcado e semanal, numa casa paroquial e pasmem, contavam com a providencial ajuda de um padre visionário e solidário para consolá-los, escutá-los e ministrár-lhes o conforto espiritual. E daí vem, mais e mais passagens e observações históricas da vida gay em Aracajú. Então vamos ouvir, do próprio Wellington Andrade, como surgiu o Movimento Homossexual em Sergipe.

Como tudo começou? “Pauladas e pedradas” nas “bichas”?
Sim, claro! Como as “Genis” do Chico Buarque, os homossexuais mais afetados e cheios de maneirismos não tinham paz. “Parece que eram feitos pra apanhar e pra cuspir”. Era uma época difícil. Estávamos no final dos anos setenta e nos encontrávamos num bairro de periferia. Mal as “criaturas” saiam às ruas, me lembro muito bem, lá vinha “coió”, vaias e toda sorte de agressões e de humilhações. Xingamentos dos mais diversos. Eu, que vim de um lar cristão e sempre fui revoltado contra as injustiças, me aliei a um sacerdote que abriu as portas da sua casa paroquial, para dar espaço e ministrar aos homossexuais, um conforto espiritual e uma palavra amiga. Aos poucos, e dos quatro cantos, apareceram gays dos tipos mais variados, e eu, muitas vezes os acompanhava até o ponto de ônibus, para de alguma forma, protege-los das pauladas e das pedradas que a meninada atirava nas “bichas” – como eram pejorativamente – xingados pela plebe.

Mas nesta época não se falava em pastorais específicas.
Voce tem razão, em 1978/79, sem saber, nos antecipávamos a um pleito muito atual, que são as pastorais – uma delas a específica aos homossexuais, que a Igreja inquisitorial nega – tapando o sol com a peneira – e teima em não ver o sofrimento e a dor no cotidiano dos gays e das lésbicas. Fazíamos sim, um movimento católico com uma presença de mais ou menos 30 gays por reunião, da qual eu era uma espécie de secretário e “segurança” pró integridade física daquelas pessoas.

Quem era quem nesta época difícil? Os mais visíveis da cidade?
Dois cidadãos eram por demais visíveis na condição de homossexuais. Acredito mesmo, que como “bois de piranha”, abriram caminho à fórceps no preconceito. Graças aos dois, quem veio depois, foi menos gongado. Um deles foi a Magnólia e o outro a “Fofinha do Mercado”. Ambos camelôs, a Magnólia, ambulante, sempre foi visto adentrando repartições à vender calcinhas, meias e cuecas. Nunca passou despercebido e vive até hoje, do mesmo ofício, claro que atualmente, com a aparência mais máscula. Assim como a Fofinha do Mercado, cujas flores, aliadas ao seu singelo codinome, são imprescindíveis à aquele equipamento público municipal. Figuras aracajuanas históricas, grandes cidadãos e de relevante importância a fauna urbana.

Mas e o lendário Lisboa, qual a grande contribuição do coiffeur?
De sã consciência, ninguém pode mencionar a história da “homossexualidade” em Sergipe, sem que haja o registro da existência desta pessoa. Lisboa, produtor de eventos, hostess, inovador, advogado e coiffeur, tinha um jogo de cintura, que fazia do seu salão de beleza um território livre. Um espaço imune em meio a barbárie do preconceito. Foi Lisboa – com os seus inéditos feitos – quem mudou a face tupiniquim de Aracajú. Com trânsito livre nas esferas do poder, querido da elite, tudo lhe era facilitado e assim aconteceu na cidade, shows de miss gay, desfiles de transformistas, e vários concursos do gênero. Sem falar, que enquanto pessoa, muito ajudou a nossa organização gay. Não só com recursos financeiros em situações difíceis, como também usando da sua influência junto a administração da cidade. E tendo um discurso sempre favorável a causa dos direitos gays. Lisboa teve um trágico fim, foi assassinado brutalmente e terminou enlutando a todos nós que o amávamos de coração . Este foi mais um, dos 89 sergipanos homossexuais assassinados nos ultimos 20 anos.

Onde vocês se reuniam? E quem ajudou o Dialogay?
Nos foram abertas as portas do DCE da UFS. Foram 17 anos ininterruptos de ocupação solidária e fraterna. Naquela época, o nosso atual prefeito – agora no seu segundo mandato pela vontade popular – Marcelo Deda, era o jovem e combativo presidente do DCE e nos deu total apoio. A bem da verdade, o nosso alcalde é até hoje, um ferrenho defensor dos Direitos Humanos. Nunca vi alguém ter tanto apreço a causa das liberdades individuais como o Marcelo Deda. A história lhe fez justiça – dai ser o próprio – um dos prefeitos mais competentes do Brasil. No campus universitário, fizemos debates interessantes. Registro que a cidade parou para ver , vindas de Salvador, dois travestis renomados – as gloriosas – a agora finada Suzanah Vermont e a veterana Karinne Bergman. Para discutirem, com acadêmicos e a midia sergipana dos anos 80, que naquela época não publicava nada de positivo sobre homosexualismo, o que seria “Travestismo”. Assunto listado nas redações como no mínimo, impopular e desagradável e não tão corriqueiro naqueles tempos. Pra matar a curisidade de muita gente quanto à nossa estrutura mínima de funcionamento eu digo: Todo o DIALOGAY cabia numa sacola. Era um caderno que servia de ata, um monte de comunicados e de informes rodados num mimeógrafo à álcool. E lá vinha eu, quase todos os dias, da Vila Senhor do Bonfim carregado de coisas até o DCE na Praça Camerino, parecia um “ sacoleiro de muamba paraguaia”. E por onde eu passava, as pessoas me apontavam “ lá vai o rei dos viados”, “é ele que tá botando minhoca na cabeça das bichas”, “por causa deste fresco é que a gente tá vendo esta pouca vergonha nas ruas, viado querendo se gente, onde já se viu?”, etc… Pois era justamente esta ignorância que me desafiava, e me compelia a cada vez mais, levar o DIALOGAY adiante. Ficar de braços cruzados, “com a boca escancarada e esperar a morte chegar” nunca foi a minha praia. Nunca tive medo ou me senti inferior a ninguém.

Então a sua vida pessoal não existia né?
Sempre continuei trabalhando e me dedicando a militância. Alguém tinha que fazer alguma coisa. Servir de vitrine e tentar mudar uma realidade injusta. Tive a compreensão da minha familia, mas nada impediu que eu fosse agredido fisicamente, por defender gays e travestis, já levei porrada também, já tive a minha casa arrombada, recebi xingamentos e não passei batido aos homófobos. Sofri muito e não foi nada fácil ter que ouvir chacotas e piadinhas de mal gosto. Mas o pior estava por vir. A AIDS.

Como foi para os Gays sergipanos a presença da AIDS na comunidade?
Em 1983, o pesadelo se abateu sobre nós. Quem já tinha ódio aos gays, achou mais um motivo para condená-los. Aracajú – que não ficou alheia ao populismo irracional da imprensa – também ocorreu em infâmia. Crucificaram em vida, tantos cidadãos inocentes. “Cancer Gay”, “Peste Cor-de-rosa” e “Doença de Viado”, todas estas pechas da enfermidade eram as sentenças de morte para nós. Pouco se sabia do HIV, até a ciência capengava, e o pânico era geral. Os gays era o “inimigo”, um nojo à estas pessoas se fez geral. No entanto, duas vozes vieram a nosso favor. Falas progressistas e ordeiras no trato anti preconceito. Uma delas, a do abnegado médico Dr. Almir Santana, que foi o mentor de toda uma rotina de transformação do medo em conscientização. Ele mesmo sofreu na pele o estigma de “médico dos aidéticos”, lhe custou a clientela fixa e mais dissabores no dia à dia. No entanto, o seu dinamismo e a sua cruzada contra a AIDS redundou em bons auspícios. Pensando por Sergipe e prezando a boa reputação de administrador, o Dr. João Alves não mediu esforços e trouxe à terra bons recursos humanos para palestras, houve muito intercâmbio e boa vontade pelo governo, acredito ter havido uma política pública de saúde frente aquela “doença quase desconhecida”, tal a que já estava sendo implantada em outros grandes centros urbanos.

A situação da AIDS em Sergipe não culminou em uma “Sodoma e Gomorra” como apregoavam os fundamentalistas à época. A cidade e o seu povo – os cidadãos gays também –sobreviveram às pragas e aos rogos malditos dos reacionários que creditavam o surgimento da epidemia a um castigo divino. O DIALOGAY se aliou com a ciência, se acobertou da informação e saiu à campo para brigar por respeito e por direitos de cidadania. A Bemfam – Sociedade Civil do Bem Estar Familiar – foi a tábua de salvação para toda uma geração de brasileiros homossexuais . Graças aos preservativos, fartamente distribuidos e de graça doados por esta instituição às organizações gays, muitas vidas foram salvas. Este trabalho pioneiro da Bemfam é uma realidade que jamais deve ser esquecida. Enfim, graças a estes condons, nós do DIALOGAY estávamos em todas as frentes, distribuindo camisinhas nas ruas, no carnaval, no São João e na sede do DCE em nossas reuniões. Anos mais tarde veio à surgir uma coordenação especial de DSTs/AIDS do Ministério da Saúde e e da Secretaria do Estado.

E no campo da visibilidade e cidadania homossexual, o que foi feito pelo Dialogay?
Muita coisa, lembrar de tudo agora é meio difícil. Mas quem tem memória e vivenciou Sergipe nos últimos 24 anos sabe que sempre estivemos atentos, abrindo novos espaços e questionando o preconceito. Promovemos palestras, cursos e como nunca nos faltou “edis amigos”, independente de partidos políticos ou de ideologias, pois o DIALOGAY sempre teve uma postura apartidária. Fomentamos, e vimos aprovado um Projeto de Lei – de autoria do vereador Gidenal Santos – que criou um logradouro batisado como “28 de Junho” no bairro Orlando Dantas. Fato inusitado, dado mencionar a data magna e internacional da conscientização homossexual – tal qual um dia como o da consciência negra – ser este dia gay lembrado e homenageado nestas paragens, foi uma conquista significativa. A inauguração da Rua foi uma festa e contou, além dos políticos e das personalidades locais, com as presenças do apresentador Leão Lobo e da atriz e modelo Elke Maravilha. O registro em cartório do Dialogay foi dificil. Conseguir o reconhecimento enquanto entidade de “Utilidade Pública” municipal e estadual mereceu muitas horas gastas para explicar aos parlamentares conservadores que o DIALOGAY nunca fez apologia da homossexualidade, mas sim dos direitos civis destes cidadãos. Do respeito aos mesmos. Conseguimos também, já que a Delegacia da Mulher ouvisse e registrasse as ocorrências contra Travestis e Gays de uma forma geral. Enlaçando-se mulheres e homossexuais contra o machismo truculento e castrador. Em 1994, o DIALOGAY de Sergipe teve a honra de ser homenageado pela organização do Gay Pride em Nova York. Estávamos lá, eu assisti a tudo bradando aos sete ventos que os gays de Aracajú, unidos, jamais seriam vencidos…e não foram.

Combateu o bom combate Wellington?
O melhor de todos. Quem desejou o fim ou o extermínio dos Gays pela peste ou pela violência quebrou a cara. Nós homossexuais não fomos dizimados pelo “castigo divino” , pelo contrário, como sofremos o estigma e a culpa imposta pela ignorância, nos cuidamos mais, nos prevenimos e hoje as estatísticas comprovam o avanço devastador da AIDS, lamentavelmente entre os heterossexuais. Combater o bom combate é saber que hoje, com tantas mudanças ocorridas. Com a AIDS fadada a ser tal e qual um diabetes controlável. É poder enxergar familias inteiras aplaudindo o amor lésbico na novela das oito. É assistir a união civil entre pessoas do mesmo sexo avançando cada vez mais no plano do legislativo. É constatar que em cidades como São Paulo , quase dois milhões de cidadãos foram as ruas referendar a diversidade, muito mais gente numa Parada do Orgulho Gay que, por exemplo, no movimento das “diretas já”, ambos eventos de significativa importância. Tenho lágrimas nos ólhos ao falar de tudo isto. Sempre fui muito emotivo e assistir a todas estas mudanças, como num filme nostálgico, me fez não ter passado a vida no vazio e na mesmice.

Pendurando as chuteiras ?
De jeito nenhum, tenho 50 anos, estou começando agora uma nova etapa da minha vida. Claro, mais voltada para o espiritual. Acho que é o curso natural da vida né? Com a chegada da maturidade, a gente passa a enxergar mais o interior e aprende a valorizar as emoções e os sentimentos, bem mais que a aparência externa ou aquelas vaidades tolas que vem junto a ambições fúteis. Tenho projetos e idéias no campo da religiosidade voltada para a comunidade gay, tão logo postos em prática, todos saberão do que se trata. Mesmo porque, tem toda uma nova geração GLSBTS na direção e tocando o Movimento Homossexual Brasileiro muito bem. Outro dia me perguntaram sobre homenagens à minha pessoa. Respondi com sinceridade. Eu fiz e dediquei mais da metade da minha vida a luta contra o preconceito e a homofobia. Não me arrependo de nada. Fui um militante na extensão da palavra. Acho que contriubui bastante para que mais pessoas pudessem hoje, ter um lugar ao sol e serem respeitadas enquanto gays ou lésbicas em Sergipe. Lutei sempre por um ideal, nunca fui assalariado de ONG alguma, nunca me locupletei com dinheiro alheio ou vivi de projetos bancados com suor do contribuinte. Portanto, tenho a consciência limpa e a alma lavada. Se querem me homenagear, se acham que eu mereço ser lembrado de alguma forma, o façam quando estou vivo, depois de morto não me interessa. Se botarem meu nome em alguma sala depois que eu “bater as botas” eu venho de noite lhe puxar os pés e assombrar todo mundo. [risos]. Eu quero este ano, se Deus me permitir, junto a todos vocês, estar na Parada de Aracajú e do alto de um trio, ver o resultado dos nossos esforços. Pendurar as chuteiras nunca, falta o segundo tempo ainda…..

Agradecimentos finais ?
Diz pra mim, a vida não é um eterno agradecer? Até o ar que a gente respira nos é dado não? Pois bem, vai faltar espaço para tanta gente boa que ajudou o DIALOGAY nestes 24 anos de existência – pessoal, “MUITO OBRIGADO” – e eu começo por esta grande dama de Sergipe, Dra. Maria do Carmo Alves, sempre solícita e fraterna aos que sofrem, um grande exemplo de mãe, administradora e de ser humano. O Governador João Alves cujas ações preventivas, ao tempo certo, minimizaram em muito os prejuízos da AIDS no estado. Aos senadores Valladares e Almeida Lima, dois grandes batalhadores por Sergipe. O amigo e ícone dos aracajuanos, Jackson Barreto. Dr. Albano Franco , sempre de plantão pelo bem de Sergipe. O médico pioneiro e salvador de vidas Dr. Almir Santana. Mais gente querida e heróis de um mundo melhor como o Dr. Jacome Góes, Luis Antonio Barreto, Maik Back, Mário Freire, a cantora Amorosa, Ismael Silva, Mário Vidal, Miriam Ribeiro. Também a toda imprensa sergipana que sempre deram espaço ao DIALOGAY e nos ajudaram nas campanhas de prevenção das DSTs/AIDS. Se esqueci de mencionar alguém, perdão antecipadamente.

Como entrar em contato contigo?
É fácil, através do e-mail:
wellaju@yahoo.com.br

