A pequena militância de uma Escola de Samba
O Grêmio Recreativo Escola de Samba UNIDOS DO ARCO ÍRIS cumpriu seu compromisso com a comunidade carnavalesca da cidade de Belo Horizonte – fomos convidados a criar tal agremiação com o propósito de ajudar a reerguer o Carnaval de BH -, mas não se esquivou de militar em prol da causa homossexual.

Sabíamos, desde o começo, que se tratava de Carnaval, folia, e que protestos acirrados não caberiam ali. Porém, a alma militante não se aquieta diante de toda e qualquer possibilidade, e não poderíamos deixar passar ocasião tão especial.

O raciocínio foi de que, nestas circunstâncias, o espectador está de alma aberta, com o coração preparado para a alegria, isto é, sem entraves e barreiras. Juntou-se a isto o fato de que a cidade homenageada (o regulamento da Belotur nos obrigava a homenagear uma cidade de Minas, e escolhemos Juiz de Fora, por razões que julgávamos óbvias), primeiro na pessoa de seu prefeito à época e depois com o eleito, não demonstrou o menor interesse em se aproximar de nossa Escola – nem quiseram nos receber. E, de certa forma, também com o movimento homossexual daquela cidade, que não nos enviou nenhum representante para o desfile.

Assim, optamos por contar e cantar no enredo um resumo da trajetória GLBT, desde a Batalha de Stonewall até a Parada do Orgulho de São Paulo. Falamos do Mágico de Oz para explicar a origem da nossa bandeira; citamos a Lei Rosa (ainda cumprimos o regulamento citando a referida cidade mineira no samba enredo e colocamos na pista a alegoria Justiça); teve uma pequena ala da militância – voluntários isolados, como um animado casal de lésbicas de Governador Valadares – com cartazes empunhados com palavras de ordem, como “inclusão”, “cidadania”, “união estável”, “respeito”, “GLBTS”, entre outras (as ONGs de militância homossexual de BH não “puderam” participar da construção da Escola, e nem do desfile, exceto a Redamig e o Projeto Horizonte).

Houve uma alteração de última hora, pois as crianças (outra exigência do regulamento) não puderam comparecer; elas estariam caracterizadas como abelhas e homenageando a Parada de SP, descritas na sinopse como “construindo o amanhã”, e transportando a faixa com o lema deste ano, “DIREITOS IGUAIS, NEM MAIS NEM MENOS”. As crianças foram substituídas por um casal do Projeto Horizonte e um militante do Grupo GJovem, que levaram a faixa com inegável galhardia.

Estava prevista, também, uma homenagem a João Silvério Trevisan, mas a pessoa que desempenharia este papel não “pôde” comparecer. E os adereços de mão ficaram para trás, na concentração do desfile. Entre eles, um enorme exemplar de O Lampião. Não faltará oportunidade.

Veio a ala das baianas – uma referência às mães, seguida da alegoria Saúde – um rapaz com a fita vermelha num arranjo tropical na cabeça, todo vestido nas cores nacionais. E encerramos o desfile com o carro/homenagem à revista G Magazine, brilhantemente ornado com seis destaques translumbrantes. Afinal, Gay é, sobretudo, luxo e bom gosto!

A UNIDOS DO ARCO ÍRIS distribuiu na arquibancada dez mil folhetos contando a história do nosso arco-íris e a criação da Escola com a letra do samba-enredo, acompanhados de dez mil preservativos (cedidos pela coordenação DST/Aids da Secretaria Municipal da Saúde) dentro de envelopes/caixa que traziam estampado na frente “Você sabe a diferença entre a aids e a alegria?”, e no verso “Aids a gente evita”, “Na folia, use camisinha”.

Chegamos a cogitar uma orientação junto a Polícia Militar, porém tudo levava a crer que não precisávamos temer incidentes, demonstrações de homofobia. E qual não foi nossa surpresa quando colocamos os pés na passarela. Dos camarotes vinham torrentes de serpentina e confete, mas ao chegarmos frente às arquibancadas, as populares, a empatia foi emocionante. O povo se levantou e cantou o samba-enredo conosco, todo mundo afiado, afinado, assobiando, gritando os nomes dos conhecidos, uma comunhão imensa. Claro, as lágrimas transbordaram. Valera a pena tanto sacrifício, meses de preparação, de encontros e desencontros. Havíamos conquistado o público, o povo.

Agora, fantasias guardadas, na próxima segunda feira tem início a instalação das oficinas profissionalizantes – dança, expressão corporal, cenografia, adereçaria, música, confecção de instrumentos… Para tal, estamos convocando a Assembléia Geral para adequações no estatuto e definições das diretorias das áreas.

Já se encontram abertas as inscrições para o voluntariado através do e-mail unidosdoarcoiris@yahoo.com.br
Osmar Rezende
GRES Unidos do Arco Íris
LIBERTOS Comunicação
www.beagay.com

