A Bahia de Bárbara: Êparrei Yansã!
Pra quem entende de festa popular na Bahia tudo está começando agora. É um ciclo de manifestações tradicionais que acontece até depois do Carnaval com a lavagem de Arempebe na grande Salvador. São Nicodemus – o protetor dos estivadores – lá das docas bateu na porta. Foi a primeira procissão e sabe quem atendeu? Bárbara a santa mártir católica ou a Yansã guerreira da maravilhosa gente do axé. E Salvador se cobriu de vermelho pra homenagear a senhora dos raios e dos trovões.

Tião Motorista estava certo “as ladainhas cantadas pelas beatas de véu e os homens cantam mais forte e pedem proteção ao céu”. Muitos, uma grande multidão de baianos ouviram atentos no Largo do Pelourinho – já que não coube a multidão na Igreja do Rosário dos Pretos – ao sermão do Padre Pinto, um consagrado artista plástico e cura diocesano que já virou um respeitado porta-voz dos oprimidos e dos deserdados do poder em Salvador.

Em todo ritual da missa ao ritmo dos atabaques e dos agogôs havia os que, de braços ao alto, clamavam a Bárbara o desejo mais ansiado. A emoção foi tamanha que sob o sol de quase quarenta graus houve pelos devotos uma corrida geral as sombras dos casarios para não desmaiarem.

A Bahia sem os seus típicos personagens não existe. Uns desaparecem e nascem outros. São divindades que as vezes reencarnam para trazer a alegria e o colorido às ruas. Poucos sabem os seus nomes verdadeiros mas as suas presenças são quase sempre contabilizadas pro bem. Uma fauna urbana que não passa despercebida.

Vendedores de artigos religiosos, turistas estrangeiros, devotos apostólicos romanos, pais, mães e filhos de santo e muita gente GLSBT foram a Bárbara guerreira prestigiar, por mais um ano, esta tradição que não parece definhar. Terminada a missa a procissão ganhou corpo e começou a percorrer o centro histórico da cidade rumo ao Corpo de Bombeiros de quem Santa Bárbara é a padroeira. Uma escada magiros sempre coloca no alto o Capelão da corporação que todo ano faz a rápida homilia.

Um caruru é servido as centenas de pessoas presentes e nos fundos do quartel um altar a Bárbara é montado mas quem reina absoluta é Yansã . Aí sim ocorrem as manifestações “gente que recebe santo e cai” mas sempre tem por perto um baba ou yalorixá para dar ao orixá a homenagem ou a assistência espiritual devida. E haja banho. Quem não quer se molhar tem que correr pois é atirada água em todo mundo. Pra refrescar o calor é babado estas mangueiras dos bombeiros.

Depois e pra finalizar a manhã de Yansã a pedida de muitos que estavam na procissão foi seguir mais uns passos rumo a Baixa dos Sapateiros e bater o ponto no Mercado de Santa Bárbara. Lá tem dezenas de barres e de restaurantes que esperavam os adoradores da guerreira. O caruru de 10 mil quiabos deste ano e de graça, só sai no final da tarde. Mais uma vez, quem não quis esperar e teve que forrar o estômago – comeu uma boa dobradinha, sarapatel, xinxim de bofe e caiu no samba. Mas para os que ainda queriam continuar rezando, no interior do Mercado e no oratório da oraga os cânticos e as oferendas continuaram por todo o dia. A gruta da Santa este ano estava uma beleza e muito bem cuidada.

Gente que brilha e acontece não faltou. Bárbara atrai e ninguém quer ficar fora do seu laço protetor. O dono da Yes Club o empresário Dion “O Fabuloso” estava lá com um grupo de amigos. Tinha acabado de depositar suas flores no andor da santa. Estive com Ademário – todo de branco – da Sauna Esgrima no Terreiro de Jesus. E ouvi Ângelo, o mestre das letras que encarna a rechonchuda “Lilith” se queixar do calor. O professor Edvaldo Couto autor da pesquisa “Michês e Gringos no Porto da Barra” chegou a tempo de ver a procissão passar.

Marcelo Cerqueira, que está ficando sarado e sem o seu Luiz Mott que está na Espanha, acenava para um monte de conhecidos e em especial a Claudecyr Hoffmann a nossa “Embaixatriz das Artes” do Pelô. E por falar em Centro Histórico, do alto do IPAC, o senhor absoluto da área, o diretor Júlio Braga era todo sorriso.

A Festa de Santa Bárbara é um dos eventos públicos dos mais pacíficos. E quem estava na sua linda galeria recebendo amigos foi o nosso super e querido artista plástico Enock Silva. Como também elegantíssimo da cabeça aos pés estava Raul, que dispensa maiores elogios. O simpático Caribé dominou a cena. O lembrei da sua fase de “Baby Babu dos Babados de Miranda”, ele sorriu e me disse: “abafa o caso Marccelus, a Babú vai voltar, me aguarde”. Pai Valdemir de Lauro de Freitas é que aproveitou para me fazer o convite “Vim pedir a benção da minha mãe Yansã. No dia 20 de março faço 30 anos de santo, vou dar uma festa. Não falte”.

Êparrei, vem mais um ano pela frente até que tenhamos novamente este encontro contigo. Inaugurada está a alegria em Salvador. Já começam outras festas e o carnaval está chegando. Fica conosco e nos proteja do mal. Dai-nos saúde porque afinal Bárbara, santa e guerreira, você é a Yansã verdadeira.

Confira mais fotos:

FESTAS POPULARES
Festa da Boa Viagem / Procissão do Nosso Senhor dos Navegantes
Parte terrestre (festa) 31 de dezembro a 1º de janeiro, Largo da Boa Viagem. Parte marítima (procissão) 1º de janeiro, parte da rampa do Mercado Modelo passando ao longo da Baía de Todos os Santos até a praia de Boa Viagem. Centenas de barco acompanham a Galeota do Nosso Senhor Jesus Cristo dos Navegantes. Origem Portuguesa. Concurso de barcos.
Festa de Reis
6 de janeiro, largo da lapinha, origem Portuguesa. Apresentação de Ternos de Reis e dos Ranchos em procissão. Festa de Largo.
Festa do Bonfim
Data móvel. Novenário, termina no segundo Domingo depois de Reis. Largo do Bonfim, na quinta-feira antes do término, lavagem do Bonfim. Procissão sai da Igreja da Conceição da Praia e vai até o Bonfim com a participação de populares, mães e filhos de santos em trajes típicos levando flores e água-de-cheiro para a lavagem das escadarias e adro da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, o santo mais popular da Bahia. Apresentações folclóricas, festa de largo.
Festa da Ribeira
Data móvel. Toda segunda-feira da terceira semana de janeiro. Largo da Ribeira. Prévia do carnaval. Festa de largo.
Festa de São Lázaro
Data móvel. Tríduo, termina no último Domingo do mês de janeiro. Colina de São Lázaro, Federação. Festa de largo.
Festa de Bom Jesus dos Navegantes
Data móvel. Último Domingo de janeiro. Ilha de Maré. Procissão marítima e terrestre, festa no barracão.
Festa de Iemanjá
2 de fevereiro, Praia do Rio Vermelho. Procissão marítima com saveiros, escunas e lanchas que levam flores e presentes até 10 milhas do mar. Festa de largo.
Festa de Itapuã
Data móvel. Novenário termina no Domingo, 15 dias antes do carnaval. Na Quinta-feira que antecede o final da festa , lavagem da igreja, baianas e afoxés em procissão da praia de Piatã até a Igreja de Itapuã para a lavagem das escadarias. Festa de largo.
Festa da Pituba
Data móvel. Termina 8 dias antes do carnaval. Bairro da Pituba. Na Quinta-feira da festa acontece a lavagem da Igreja da Nossa Senhora da Luz. Baianas partem do largo de Amaralina até a Igreja situada na Pituba para a lavagem do adro e das escadarias.
Carnaval
Data móvel. Ruas centrais, Farol da Barra, Ondina e outros bairros. Apresentações de trios elétricos, afoxés, blocos, cordões e batucadas.
Fundação da cidade do Salvador
29 de março. Missa e sessão solene na Câmara Municipal shows em praça pública.
Procissão de Ramos
Data móvel. Início da Semana Santa (Domingo), 40 dias após o carnaval. Principais ruas do centro. Procissão que simboliza a idade de Jesus ao Monte das Oliveiras para Jerusalém.
Procissão do Nosso Senhor Morto
Data móvel. Sexta-feira da Semana Santa. Principais ruas da cidade. Procissão que simboliza a paixão e morte de Jesus.
Sábado de Aleluia
Data móvel. Bairros da cidade. Queima de Judas.
Festa de São Francisco Xavier
Principais ruas da cidade. Missa e procissão.
Festa do Divino Espírito Santo
Principais ruas da cidade, procissão do imperador e sua bandeira.
Festa de São João
23 e 24 de junho, comemorada com foguetório, fogueiras, forrós e comidas típicas da época.
Festa da independência da Bahia
2 de julho, Praça da Sé, Campo Grande, Pirajá, desfile de carros alegóricos, batalhões libertadores, colégios e povo.
Festa de Nossa Senhora das Neves
4 a 5 de agosto, Ilha de Maré. Procissão marítima da Ribeira a Itamoabo. Festa no barracão.
Festa de Bom Jesus do Amparo
7 a 8 de setembro, ilha de Maré, procissão marítima da Ribeira à ilha. Festa do barracão e procissão terrestre.
Festa de São Nicodemus
Data móvel. Último Domingo de novembro, Cais do Porto. Missa festiva, procissão e caruru.
Noite Samba
2 de dezembro. Abertura do ciclo de festas populares. Praça Municipal. Apresentação de sambistas.
Festa de Santa Bárbara
4 de dezembro. Mercado de Santa Bárbara. Um caruru é oferecido ao povo. Procissão.
Festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia
8 de dezembro. Largo da Conceição da Praia. Procissão. Festa de largo.
Festa de Santa Luzia
10 a 13 de dezembro. Procissão, visitação à Fonte Milagrosa. Festa de largo.
Missa do Galo
24 de dezembro. Praça Municipal. Missa Campal com mensagem do prefeito da cidade.
Ano Novo
31 de dezembro. Praias da cidade. Entrega dos presentes dos devotos do candomblé. Nos clubes, bailes e, até meia-noite a contagem do ano novo e carnaval é até o amanhecer.

