E lá vem o cortejo! Era triunfal a chegada das “baianas” na escadaria da fama! Sai da frente gente! Todos abriam caminho e dava passagem. Saibam vocês que tinha folião que reverenciava as folclóricas se jogando ao chão e deixando-se banhar pelos chuviscos do abô. A benção minha mãe! Alguns pediam! Aquele caldo de folhas. Que fedia a coisa podre – elas carregavam em grandes potes nas cabeças e que mal dava pra molhar todo mundo.

Angélicas eram as flores preferidas. Tinham aroma. Vidros e mais vidros de alfazema eram esvaziados ao longo do percurso. O que não deixava de ser providencial diante do suor reinante nos corpos e do cheiro de xixi impregnado nas ruas. Salvador fazia jus a fama; verdade mesmo, mijo e momo se casavam legal. E aquelas tardes de segundas-feiras era um dos mais esperados momentos do Carnaval da Bahia, isto há vinte anos atrás.

Nós tínhamos então um grande aliado da folia. Quando Governador, o senador ACM inovou no Brasil. Esticou e deu mais tempo ao calendário oficial do Carnaval. Os baianos ganharam mais um dia – que ninguém até hoje ousou revogar o que é uma dádiva imensurável – para se brincar e se esbaldar à vontade. E quanto a escadaria da fama, pasmem todos – que a coisa dos desfiles de Gays fez tanto sucesso – que surgiu gente agradecendo de joelhos a rude passarela de madeira e compensado que o governo mandou fazer pras “bonitas” soltarem a franga.

O cenário não poderia ser outro: a ainda viva Praça Castro Alves. E a escadaria da fama era a que lá existe até hoje – os degraus do Palácio dos Esportes. Mas não viagem na maionese e pensem em carnaval com banheiros químicos ou tudo prontinho e “organizado” como mostra a mídia de agora. O que existia mesmo nos anos 80 era um monte de barracas feitas de caibros e cobertas de lona, gambiarras, tamboretes de madeira, caixas de som de radiolas, muito xixi no chão, cervejas em garrafas e copos de vidro. Ninguém ligava pra nada, o negócio era brincar e se divertir muito.

Havia muito ekê também. Tudo fazia parte do show das ruas. A bichas davam pinta imitando e fingindo serem tomadas por Exus e Pombas-Giras, mas tudo fazia parte da irreverência e da alegria que reinava, afinal diz o poeta “sagrado ou profano o baiano sempre foi carnaval”. E lá vinha a mãe de todas as baianas: o saudoso e inesquecível decorador Roberto Barbosa, quando vivo um másculo quarentão, estiloso, que fazia um tipo leather americano e que durante anos liderou, organizou e manteve a tradição deste séqüito de “baianas”.

A ambiência do candomblé era total. Deslumbrante era se ver o ritual de licença a Zâmbi ao se iniciar o desfile. Os orixás avisados. A saída era pedida e os “abre-caminhos” invocados. Queimava-se pólvora e todas as “baianas” em sentinela, postavam-se na primeira encruzilhada que encontravam. E deste ato de fé fazia parte quem estivesse – muito bem e impecavelmente fantasiadas, as filhas-de-santo mais espalhafatosas sempre se posicionavam ao lado da “ebami Roberto Barbosa”.

Tudo tinha que ser belo, trajes feios ou vestes improvisadas não tinham vez, daí que grandes nomes como o do estilista e ator William Summers, o do performático Tony Beleza e o do irreverente Roquinho da Hora eram presenças notadas. Estas pessoas tinham bom gosto, irreverência e muita criatividade. Não passavam em branco.

A tortura daquelas segundas-feiras de carnaval era conseguir ver e chegar perto da movimentação das “baianas”. O povo se espremia para não perder o espetáculo. Tinha criatura pisoteada e empurrada dadq a disputa acirrada para se tocar nas divinas ou delas receber as “águas de cheiro”.

A gritaria histérica da multidão se dava quando algumas delas resolvia receber o “santo” no meio da rua. E lá vinha o Roberto Barbosa com as suas evocações em yorubá a gesticular aos céus e a tinir desenfreadamente o seu sagrado chacoalho. Liberada a bicha do seu Exu, a caminhada seguia em frente. E mais risos, alegria, irreverência, beleza e prazer do carnaval feito com paixão. Era tudo muito, mas muito emocionante de se ver. Elas saíam da Gamboa e horas depois, abrindo o cerco na multidão, bastante suadas e amarrotadas, mas com toda energia do mundo, lavavam as escadarias da fama. E quem tinha disposição desfilava o que tinha pra mostrar, público atento é o que não faltava.

Hoje nada disso existe mais. A Praça Castro Alves – não tem milagres que façam – murchou pro carnaval. Raridade, uma ou outra bicha desavisada, doida ou corajosa demais, ainda se arrisca a enfrentar os moleques e sair fantasiada [montada] pelas ruas de Salvador. Os gays “modernos” estão nos becos e vielas da Barra azarando as bichas de fora e as mais “antigas” – ou se preferirem, nostálgicas e inteligentes, ainda vão ao Clube Fantoches marcarem presença no único baile gay que ainda existe na cidade do Salvador por esforço homérico e exclusivo do costureiro Di Paula.

Mas dizer que está ruim? De jeito nenhum, cada qual sabe muito bem como ser feliz. O que passou, passou! Apenas nos cabe o registro histórico dos antigos feitos gays, porque a nossa cultura homossexual não pode e não deve ser minimizada por ninguém. E nem mesmo virar pó no esquecimento.

E aqui pra nós, cada carnaval tem a sua própria maneira de acontecer. Os meus foram fantásticos é por isso que me lembro tão bem da homossexualidade bem vivida! No mais acreditem, as “baianas da escadaria da fama” vivem dentro da gente…procure a sua que você acha!
As imagens desta matéria foram gentilmente cedidas pelo GGB.
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