Os que foram forçadamente para o “andar de cima” não serão esquecidos.

Se da memória, o implacável tempo ou o nosso covarde conformismo, os apagarem – da nossa razão de ser, nunca serão extintos, queiramos ou não. São como a tatuagem que trazemos na pele ou quem sabe, uma sombra que nos acompanha reclamando ser vista. Vítimas de uma barbárie, como nós também homossexuais, mortos pelo ódio e pela aversão anti-gay que tem um nome: Homofobia.

Vamos nos lembrar:

A lembrança agora é – pelo menos para mim – uma arma contra este estrupício do conto de fadas cor-de-rosa. Tem que jogar a realidade no ventilador e fazer feder sim. Nem tudo é alegria ou oba ôba no circuito. Os gays não vivem no eterno mundo maravilhoso e perfeito. Há um dragão que joga pesado para tirar-lhes o fôlego. Normalmente os Gays são as presas mais fáceis para toda sorte de maldade. Quase sempre desamparados pela família, morando sozinhos e arredios por viverem se escondendo ou camuflados, naturalmente que viram o alvo fácil. “Quem nunca ouviu frases do tipo “Gay tem mais é que morrer”, “Prefiro um filho ladrão do que ter um viado na família” ou esta pérola que já foi estampada até no maior jornal do Norte e Nordeste “Mantenha cidade limpa mate uma bicha todo dia”.

A ignorância acredita mesmo que pode roubar, mutilar, xingar ou denegrir uma lésbica ou um gay, que não vai dar em nada. Afinal quem está a favor dos gays? A igreja? A justiça? A família? A mídia? Aquela que só dá espaço ao sensacionalismo, à bicha folclórica ou a caricatura da homossexualidade?

Recordar os crimes contra os homossexuais – para muitos pode ser desagradável e constrangedor – mas é necessário lembrá-los todo o tempo. Hoje a vítima foi o “cabeleireiro” da esquina, amanhã poderá ser qualquer um de nós. Mais que uma obrigação é um alerta. Principalmente contra a impunidade, porque estamos falando de pessoas, cidadãos produtivos, gente do bem que muitas vezes não tiveram o respeito da lei. Não foram presos os seus algozes ou tudo acabou em pizza com os criminosos à solta e tripudiando da cara da gente.

E lá vem uma advertência: por enquanto e também desde que o Brasil existe não há uma fórmula mágica para se safar da homofobia. O negócio é ser esperto e saber quando ela ataca. Independente de quem seja ou do status social, o homossexual morre do mesmo jeito quando não percebe a vulnerabilidade que possui diante do tudo e do todo que o condena.

A tábua de salvação é sem dúvida a auto estima.

Sabendo-se normal, natural e sem sentimentos de culpa a coisa muda de figura. O homem ou mulher homossexual que seria o escolhido para a crueldade da vez, a vítima, terá mais chance de detectar os sinais da homofobia venha de onde e de quem vier. Ai sim, não será pego desprevenido diante desta condenação social. Saberá revidar ou no mínimo se defender.

Reiteradas vezes o Grupo Gay da Bahia tem falado num famigerado récorde que faz do Brasil um dos países mais perigosos do mundo para os homossexuais. São as estatísticas e os números dos brutais assassinatos que o referenda como tal. Afinal “a cada 48 horas um gay ou uma lésbica são barbaramente executados no país”

No Brasil se mata um homossexual a cada 48 horas e 2.218 foram os chacinados nos últimos vinte anos. Dados superficiais porque nem todos os crimes contra homossexuais são estampados na mídia ou pelo menos, sabía-se a explícita a orientação sexual do morto. Contudo, triste Bahia que tem também o seu rosário de vítimas. Logo no “país Bahia”. Na “Capital da Alegria”, em Salvador, uma terra entendida como permissiva e a afamada encarnação do “pode tudo” erótico. O Estado da magia que encanta a todos, cujo apelo da fantasia homo/lascívia em suas festas públicas seduzem de montão.

Pois é, não se enganem ou sejam “Alices”, acordem porque nas paragens do Senhor do Bonfim, se mata com requintes de peversidade e muito os homossexuais. Só no ano de 2002 foram 10 as vítimas e em 2003 assassinaram 17 gays e lésbicas sem contar o mês de dezembro. Já agora em 2004, até julho já contávamos com 06 baianos cruelmente mortos por serem homossexuais.

Debutar livre e solto numa multidão de Parada Gay não significa estar livre da pena máxima. Estão mais visíveis os gays e as lésbicas e por isto também muito mais visados à procedência do crime.

Todo cuidado e alerta são poucos.

ALGUNS EXEMPLOS DE BAIANOS FAMOSOS VÍTIMAS DESTE TERRÍVEL HOMOCAUSTO:

O ESQUARTEJADO DE SANTA TERESA

O mais comentado crime dos anos 70. Entrou para o rol dos insolúveis e virou lenda urbana na Bahia. No bojo das investigações e da moral à època muitos “pederastas” foram humilhados e “meretrícios” gays fechados. [veja matéria no link…]

BENEDITO MATOS – “FLORIPES”

Lembro de uma criatura muito especial. Nem tentem compará-la à personagem de Cervantes, contudo a nossa quixotesca Floripes [Benedito Matos, 50 anos] sempre foi muito original. Uma das últimas figuras folclóricas da Bahia era uma espécie embrionária das drag-queens. Subia e descia a Ladeira de São Bento cantando Edith Veiga “Faz-me rir” e se enfeitava toda – da cabeça aos pés – com fitas gurgurão. Morreu em 1984 vitima de um soco desferido por um biscateiro no Mercado de São Miguel.

JOSÉ DE SOUZA OLIVEIRA “OLIVEIRA” e ROBERTO JORGE FRANCO “BEBETO FRANCO”

Ambos foram proprietários da Boate Holmes [Atual Yes Club]. Dois empresários que agitavam as noites gays em Salvador no começo dos anos 80. O primeiro foi morto a tiros em 1988 por rapazes que levou à sua casa no Ed. Flávius [Correio da Bahia – 28/06/88 e A Tarde 13/12/88] e o segundo foi cruelmente assassinado em 1998 [A Tarde 29/08/98]. “Bebeto” era muito querido na comunidade gay e nos últimos anos de sua vida se dedicou a dar brilho e a manter a tradição do “Baile da Oxum” um dos acontecimentos mais esperados do carnaval em Salvador.

LÁZARO SENNA CARIBÉ – “CARY”

Sofisticado e personagem do Jet-set local, era o couffer mais badalado do momento. De personalidade forte e presença impar era sempre visto ao lado da manequim internacional a Condessa Luana de Noilles, de quem era amigo pessoal e suas aparições nas Festas de Yemanjá no Rio Vermelho eram surpreendentes. Foi trucidado aos 40 anos, com extrema crueldade em 1993. [Todos os Jornais da Bahia – 13/12/93].

MOACIR MORENO

Ator da Cia. Baiana de Patifaria – Do elenco original da Peça “A Bofetada” – Um dos mais talentosos artistas do teatro baiano, foi espancado e estrangulado aos 36 anos e no interior do seu ap. na Barra por três homens. [A Tarde 12/10/94 e Correio da Bahia 13/10/94]

MARCOS IVAN DE OLIVEIRA FRANK

Manequim e modelo de 21 anos, foi morto à tiros em Jaguaripe pelo fugitivo Jorge Alves, 19, que já matara dois outros homens e foi morto à golpes de chuço pelos companheiros de cela quando tentara fugir vestido de mulher da penitenciária Lemos de Brito.

DOM MAGNO MATTOS SALES “Saiúda”

Bispo da Congregação dos Padres Missionários de Jesus, 69 anos, foi morto com 39 facadas dentro da Capela. Dom Magno era compositor e teve músicas suas gravadas por Adilson Ramos e Agnaldo Timóteo. Recebia muitos garotos à portas fechadas e foi estrupado e morto por “Diabo Loiro” que fugiu da Casa de Detenção de Itabuna em 1991. [“Padre era a melhorzinha” – Jornal da Bahia 20.06.91]

RICARDO “16” E MARCELO BRUNI “28”

Amantes e primos, fizeram um “pacto de morte” e no bilhete deixado foi revelado o motivo das mortes – a discriminação da família quanto ao relacionamento de ambos: “…estávamos sofrendo muitas pressões e discriminações de nossos familiares” [Tribuna da Bahia 3,4 e 5/03/93; A Tarde 04/03/93

ARNALDO AUGUSTO DOMINGUES

Português, couffer, 58 anos, dono do Arnaldo’s Cabeleireiro e sócio do restaurante “Forne de Algoderes” , foi morto no Edf. Trieste – Ap. 103, no Dois de Julho em 1985 [A Tarde 08/10/85]

FRANCISCO ERNANDES DE LIMA

Diretor social do Banco do Nordeste, 36, promovia desfiles de moda e foi morto no Edf. Excelsior/501 à facadas após manter relações sexuais com desconhecidos. [A Tarde e Correio da Bahia 21/04/1985]

MARCELO JOSÉ ESTEVES

Médico, fisioterapeuta e ator, 38 anos, foi morto com 38 facadas – tal a sua idade – com requintes de crueldade, os vizinhos viram o assassino. [A Tarde 22/08/87]

JAYME RIBEIRO DA SILVA

Oficial de Chancelaria do Itamaraty, servindo em Hamburgo, foi estrangulado em sua casa na Rua do Carmo 48, na mesma rua em que seria assassinado nas mesmas circunstâncias e um ano depois, o artista plástico português Júlio José Carvalho Monteiro. [A Tarde 08,10 e 13/03/87]

JOEL SANTOS LOBO – “JOEL DO QUIXABEIRA”

Criou nos Barris o palco mais eclético da noite GLS. Ponto de todas as tribos: o Bar Quixabeira. Enlutou a comunidade gay logo no começo deste ano. Foi morto em casa no reveillon à golpes de chave de fenda. Até agora a polícia não tem pista do criminoso. Foi um dos funerais GLS dos mais comoventes para os ex-frequentadores do Quixabeira.

AGORA SEGUE UMAS DICAS DO GGB PARA QUE SEJA MAIS ESPERTO E NÃO SE DEIXE MORRER OU SER ENGANADO:

Dicas para evitar a violência anti-gay

Evite levar desconhecidos ou garotos de programa para casa. Prefira fazer programas em hotéis, motéis e saunas;

Investigue a vida da pessoa com quem pretende sair. Prefira pessoas indicadas por amigos;

Só faça programas com elas depois de ter certeza que são de confiança;

Nunca beba líquidos oferecidos pelo parceiro eventual. A bebida pode conter soníferos;

famoso “Boa Noite Cinderela”. Em um bar, boate… se você, precisar ir ao banheiro, etc.. leve o copo consigo, ou, invente uma desculpa e jogue o liquido fora;

Se levar alguém para casa, não o esconda do porteiro, ou de vizinhos. Eles podem ajudá-lo na hora do perigo. É sempre bom ter uma boa relação com esse pessoal. Na hora do babado, eles sempre são solidários;

Se for possível, não esconda que é gay. Isso evita chantagem e extorsão;

Não se sinta inferior. Não se mostre indefeso, evite demonstrar passividade, medo, submissão. Não cultive o tipo machão, ou pelo menos não mostre que o valoriza tanto;

Evite fazer programa com mais de um michê. Antes da transa, acerte todos os detalhes : preço, duração, preferências eróticas ( se ele aceita, por exemplo, ser passivo);

Não humilhe o parceiro. Não exiba jóias, riqueza ou símbolos de superioridade que despertem cobiça. O garoto de programa quase sempre é de classe inferior à sua;

Se o encontro for na sua casa, tranque a porta e esconda a chave. Não deixe armas, facas e objetos perigosos à vista, você é dono da casa e deve dominar a situação;

Quando for agredido, procure a polícia, peça exame de corpo delito e denuncie o caso aos grupos de ativistas homossexuais. Lembre-se que as Delegacias de Polícia são públicas. Se foi mal tratado pelo oficial, chame o Delegado Titular, se ele não estiver chame o plantonista. Se mesmo assim, for mal atendido, entre com uma ação contra a delegacia. Não tenha medo!

E SOBRE A SUA HOMOSSEXUALIDADE SAIBA SEMPRE QUE:

Dez Verdades sobre a Homossexualidade

(Fonte: Publicação do Grupo Gay da Bahia)

Ser homossexual não é crime. Nenhuma lei no Brasil condena a prática da homossexualidade. Crime é discriminar gays, lésbicas e travestis. É legal ser homossexual.

Homossexualidade não é doença. Todas as Ciências garantem: é normal ser homossexual. Querer “curar” um homossexual é ignorância.

Homossexualidade não é pecado. Os gays e lésbicas tb. se amam e foram criados por Deus. Jesus nunca condenou os homossexuais.

A homossexualidade sempre existiu. O amor homossexual é tão antigo quanto a própria humanidade – e nunca vai acabar.

Todos os povos praticam o homoerotismo. Em muitas tribos indígenas e africanas os sacerdotes e as próprias divindades eram homossexuais.

A homossexualidade é natural. Inúmeras espécies animais praticam a homossexualidade. Os gays não ameaçam a extinção da espécie humana.

A causa da homossexualidade é um mistério. Nada distingue o físico e a mente dos homossexuais dos demais cidadãos. Todos somos seres humanos.

A Constituição Federal proíbe qualquer tipo de discriminação. O preconceito contra lésbicas, gays e travestis é um tipo de racismo. Denuncie a discriminação homofóbica.

A Aids não é doença gay. A Aids se transmite através do sangue, esperma e secreção vaginal. Só pratique sexo mais seguro sempre!

Homens e mulheres célebres que praticaram o homoerotismo ou foram travestis: Platão, Safo, Santo Agostinho, Leonardo da Vinci, Sta Joana Darc, Shakespeare, Miguelângelo, Mazaropi, Mário de Andrade, Santos Dumont, Imperatriz Leopoldina, Maria Quitéria, Gilberto Freire, Martina Navratilova, Marina Lina, Elton John, Renato Russo, etc, etc…

Tudo o que foi divulgado aqui é verdadeiro e se baseiam em pesquisas e livros científicos