Por Marccelus Bragg
Um verdadeiro lar: fotos de toda a familia nos porta-retratos, gente de idade tirando uma soneca no terraço, uma espaçosa residência de arquitetura Bauhaus, duas meninas sorridentes correndo pelo meio da sala, rosas e dálias nos jardins e a mais famosa Igreja da Bahia – a do Senhor do Bonfim – a cem metros de distância. Este é o cenário em que vive duas das mais felizes lésbicas baianas – as enfermeiras Cida e Ana.

E o motivo para tanta alegria é um só: elas acabam de consagrar o antigo sonho de ter a sua união sacramentada, ainda que seja numa carteirinha de benefícios. E de certa forma no “papel”, oficial e reconhecida por organismos públicos. É que o PLANSERV – o plano estadual que assegura direitos previdenciários e de saúde aos servidores publicos do estado da Bahia, acabou de reconhecer a lésbica Cida como dependente e na condição de “companheira” da enfermeira Ana que é funcionária.

“Este foi o nosso maior presente e chegou na véspera do Dia dos Namorados”. E para nós não poderia haver uma alegria maior. Esta nossa conquista a queremos partilhar com os demais “casais” de gays e de lésbicas para que façam igual e garantam para si, a mesma oportunidade que tivemos” nos relata Cida.

Embora vivam juntas, sejam assumidas e toda a familia, tanto do lado da Cida quanto do lado da Ana, saibam da convivência de ambas, não foi fácil comprovar a existência e a estabilidade da relação junto ao poder público. Certidões, testemunhas, comprovantes bancários, de residência fixa do “casal” e dos créditos em conjunto valeram como provas. E o mais importante de tudo isto foi que as duas mulheres, sabiamente recorreram ao GGB – Grupo Gay da Bahia e firmaram sob os auspícios daquela entidade, um contrato de união estável como fica bem claro neste depoimento da Cida “…Cada um de nós, homossexuais masculinos ou femininos devemos ir em busca dos nossos direitos. Eu vivo há quatro anos com a Ana. Ela é a minha companheira e a quem amo e com quem decidi dividir a minha vida – tanto as alegrias e o prazer na cama, quanto os momentos de dor, perda e de tristezas. E depois, de comum acordo e muito bem pensado por ambas – decidimos ser mães e neste sentido o destino nos favoreceu. Então, não tivemos outra escolha que não fosse batalhar rumo a oficialização da nossa união. Mesmo porque não somos mais adolescentes, somos duas mulheres adultas e conscientes de que, amparadas pela lei teremos no mínimo o que conquistamos agora, um certo amparo na assistência médica e para o caso de uma faltar – se convocada por Deus ao “andar de cima” – que a outra não fique na rua da amargura ou completamente desamparada financeiramente. E claro, sabemos muito bem que só aceitaram reconhecer a nossa união pelo respeito que o Grupo Gay da Bahia exerce aqui na Bahia. E na sede do GGB no Pelourinho firmamos um contrato com o aval de seis testemunhas, documento este que posteriormente foi registrado em cartório.”


Assim que a Cida recebeu a sua carteirinha do Planserv, a titular Ana sentiu um alívio. É como se lhe a vida lhe sorrisse mais uma vez “….mantive um casamento heterossexual durante 17 anos, e quando me separei descobri em outra mulher, a Cida a razão do meu existir. Como diz a poesia … O meu destino é caminhar assim, desesperada e nua, sabendo que no fim da noite serei tua. Deixa eu te proteger do mal, dos medos e da chuva..então não dá pra dizer mais nada sobre a nossa paixão. Só lembro uma coisinha básica. Temos consciência que Constituição Federal não permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas não proíbe que estas vivam juntas e que possam ter filhos ou de fazer documentos particulares onde descrevam estas uniões. Imagino que ao pleitear a Cida como a minha dependente no Planserv fugíamos dos padrões e das convenções, mas não estávamos fora da lei. Eu sempre fui uma cidadã honesta, estudei e fiz carreira, me submeti e passei em todas as etapas de um rigoroso concurso, trabalhei, portanto me acho no direito de conceder meus benefícios tanto a um homem quanto a uma mulher, cabe a mim decidir isto e não existe lei que me proíba de fazê-lo.”

A Cida e a Ana, despojadamente emprestam a sua imagem e o seu depoimento neste final feliz junto ao Planserv, para incentivar a que mais pessoas homossexuais lutem, corram atrás dos seus direitos. Elas são queridas e se sentem amadas por seus familiares, vizinhos e na comunidade hospitalar em que trabalham, justamente por esta razão: são verdadeiras. Autênticas e naturais, tem uma vida normal, as vezes regada ao som da Ana Carolina, Ro Ro e Duncan. Louças pra lavar, pais idosos para cuidar, contas no final do mês para pagar e fraldas pra trocar. Muquecas de peixe e cervejinhas no por-do-sol da Ribeira. Anjos, cristais e incensos pra purificar a alma e desarmar os corações.
Enfim, duas mulheres que se chamam “dignidade e coragem”, e em nome delas explicitamos uma crença: Podem adiar em nome do preconceito e da ignorância, a permissão ao “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. Mas volto a repetir, adiar, porque um dia chegaremos lá…contra o poder do amor a homofobia eterna não existirá.
Contatos com a Ana e a Cida podem ser feitos através do e-mail:
cidatupiniquim@terra.com.br

