Adamor Guedes

Presidente da AAGLBT

Adamor, você é uma liderança jóvem, como e quando começou a se envolver na luta em defesa dos gays e das lésbicas em Manaus?

Em primeiro lugar é um prazer e uma honra estar dando esta entrevista para este portal que é um sucesso na internet, eu apesar de não ter muito tempo para navegar na internet, sempre que posso visito alguns sites e o Marccelus Portal é um deles.

Eu nasci no Amazonas em um município chamado Fonte-Boa, vim de lá muito novo e sequer tenho lembranças e conheço a cidade. Cresci em Manaus e tão logo tive condições comecei a viajar pelo Brasil e alguns países. Em 1991, quando estava morando em Recife-PE, assisti uma entrevista do LUIZ MOTT no Programa CANAL LIVRE da Band e anotei o endereço do GGB, que já conhecia pelas notícias do seu trabalho pioneiro, o qual sempre admirei.

Como se descobriu homossexual?

Sempre me achei diferente dos meus irmãos que ao todo somos quatro, nunca me envolvi com brincadeiras masculinas e acho que sempre tive consciência de ser homossexual, apesar de relutar e tentar ter relacionamentos heterossexuais, até que com 20 anos resolvi me assumir para mim e meus familiares. Também sempre fui muito tímido e jamais me imaginei assumindo publicamente a homossexualidade, ainda mais, que viria a ser uma liderança de movimento gay em Manaus.

E aí foi o momento da militância ?

Mas foi isso que aconteceu, quando voltei a Manaus em 1992 “indignado com a perseguição e discriminação sofrida pelos homossexuais em nossa cidade“, organizei um grupo de amigos e resolvemos fundar em 20.02.1992 o GGA-Grupo Gay do Amazonas, sendo que a nossa primeira aparição foi em uma entrevista no Jornal Amazonas em Tempo, que gerou muita polêmica na cidade. Depois dei uma entrevista em um TV local no qual me assumi publicamente como homossexual e liderança do movimento. No início foi muito difícil e complicado, mas contamos com o apoio fundamental do GGB na pessoa do LUIZ MOT e do Huides, ex-militantes do grupo, grandes incentivadores do nosso movimento.

Quais as maiores dificuldades que você encontra em levar esta mensagem de cidadania aos gays adiante?

 Apesar do nosso movimento estar atuando a mais de 13 anos em Manaus, e já termos passados por várias dificuldades e também conseguido várias avanços para a nossa comunidade, ainda temos dificuldade de fazer com que os homossexuais assumam a bandeira da defesa dos seus direitos.

Então é preciso um quadro de discriminação para que os gays sintam que a união faz a força?

A maioria dos nossos militantes se engajou na luta depois que tiveram algum problema e foi resolvido com o apoio da entidade, a partir daí eles resolveram ser militantes.

É fácil ser Gay ou Lésbica na Amazônia?

Pela nossa cultura predominante indígena e com a sexualidade a flor da pele, com a colaboração do clima sempre quente o que favorece o uso de poucas roupas, nossa população tem uma iniciação sexual muito precoce e com os homossexuais não é diferente. É claro que existe uma discriminação como em todo lugar, mas com o passar do tempo e com o trabalho de visibilidade do nosso movimento os gays e lésbicas nos últimos tempos têm tido mais liberdade para se expressarem de várias formas e em vários segmentos sociais. Antes do nosso movimento era mais difícil, hoje está bem mais fácil.

Qual o número de assassinatos de homossexuais no Amazonas? É fácil se conseguir esta estatística?

Desde que fundamos o movimento, iniciamos um levantamento e temos acompanhado ao longo dos anos os casos de assassinatos de homossexuais em Manaus e no Amazonas. Durante este tempo temos documentado 90 casos de assassinatos. Em 2002 o Amazonas teve 14 assassinatos de homossexuais e ficou com o 1 o . lugar no Brasil se considerarmos o número de casos com relação ao número de habitantes. Em 2003 ocorreram 11 casos e em 2004 voltou a subir e terminou o ano com 14 assassinatos. A maioria dos casos é noticiada pela imprensa, mais alguns casos tomamos conhecimento por outros homossexuais ou simpatizantes e aí vamos a procura dos dados em delegacias e no Instituto Médico Legal. Nos últimos 2 anos a polícia tem colaborado muito com a AAGLT no fornecimento de dados e nas investigações dos casos.

Você tem sido vitorioso e respeitado no Brasil enquanto líder deste movimento na região Norte. É a sua dedicação que te faz tão popular e a ser considerado como um aguerrido gerreiro da cidadania gay?

Acredito que a persistência a coragem e a seriedade é que tem feito com que nossa instituição seja hoje no Amazonas a maior entidade de defesa dos direitos humanos do Estado, respeitada pelos homossexuais, pela população e pelas autoridades. Ainda sou uma referência, quando se fala na defesa de homossexuais, falar de gay, fala-se de ADAMOR GUEDES, mas temos toda uma equipe que está por trás deste sucesso e que são as novas lideranças dentro da nossa instituição e do nosso movimento no Estado.

Como se faz um Gay Pride acontecer? Qual o segredo de uma Parada do Orgulho Gay de sucesso? Como é feita a escolha das atrações da Parada? Diversão ou Protesto no evento?

Sempre tivemos vontade de organizar uma parada gay em Manaus, mas ficávamos receosos que não fosse ninguém. Em 2000 tomamos coragem e organizarmos o I GAY PRIDE MANAUS, foi no centro da cidade e deu em torno de 50 homossexuais, entre gays e travestis e aproximadamente umas 500 pessoas assistindo e em volta dos 2 carros de som que levamos. Em 2001 não organizamos e em 2002 fizemos novamente no centro de Manaus e já deu em torno de 5.000 pessoas. Em 2003 resolvemos mudar de local e fazer na Praia da Ponta Negra, a expectativa era de levar em torno de 10.000, com 5 grandes trios elétricos e vários shows, no final para nossa surpresa foi o maior sucesso e segundo a Polícia Militar deu em torno de 50.000 pessoas. Em 2004 realizamos alguns eventos pré-parada e novamente o IV GAY PRIDE MANAUS 2004 foi realizado na Praia da Ponta Negra com 70.000 pessoas se tornando a uma das maiores paradas do Brasil. Nas primeiras paradas nós organizávamos sempre em um mês, mas nas últimas começamos a trabalhar pelo menos 6 meses antes, para se conseguir apoios governamentais, da iniciativa privadas e para realizar os eventos pré-paradas. As atrações de shows e convidados sempre são de acordo com que os homossexuais se identificam mais, pois acima de tudo eles são o nosso público principal. Apesar da parada ser uma grande festa, é também um momento político do movimento, onde protestamos, denunciamos, reivindicamos nossos direitos e agradecemos quem tem ajudado a comunidade homossexual e a organização da Parada.

E como vai ser o Gay Pride Manaus deste ano?

Em 2005 o V GAY PRIDE MANAUS vai passar por uma modificação radical, vai deixar a Praia da Ponta Negra e passar para o Centro de Convenções do Amazonas ou como chamam “Sambódromo”, será em outro formato, mais com certeza um grande show de sucesso, a expectativa e superar os 100.000 participantes. Para isto a organização da parada irá terceirizar alguns serviços.

A sua vida pessoal se mistura com a militância? Você tem tempo para o amor? Como foram as suas últimas férias?

 Quando você se envolve muito com a militância e principalmente quando o movimento se confunde com você é complicado, e dificilmente a militância não se mistura com sua vida particular. Geralmente você está à disposição do movimento 24 horas por dia, pois muitas vezes você é acordado no meio da madrugado por homossexuais que estão sendo presos, ou com algum outro problema e que lhes procuram.

Mas estar todo tempo à frente e em defesa dos Gays oprimidos não é perigoso? Você não se tornaria uma pessoa vulnerável à violência também?

No meu caso, devido às denúncias que a AAGLT faz e os casos que acompanha, recebemos muitas ameaças e já sofri 3 atentados, e nos últimos 2 anos tive que andar com segurança policial colocada pelo Estado.

Então até as relações afetivas são difíceis ?

Com relação a namoro fica meio complicado já que os parceiros ficam receosos da grande exposição da minha vida profissional e conseqüentemente da minha pessoa. Porém, hoje na AAGLT temos várias novas lideranças que estão me ajudando tocar o movimento e já tenho agora, mais tempo para minha vida privada e para namorar. Atualmente, desde Junho de 2004 estou namorando com um pernambucano que conheci em Recife, apesar da distância nos vemos com freqüência, de dois em dois meses eu vou para o Recife ou ele vem para Manaus. Minhas últimas férias, claro, foram em Recife no mês de dezembro passado.

O que você queria que tivesse em Manaus que seria muito bom para os homossexuais? Uma delegacia especializada em crimes de homofobia ou um centro comunitário de atendimento 24 de apoio e conscientização gay?

Na realidade não sou muito a favor de delegacia para mulheres, delegacia para negros, delegacia para homossexuais, sou da opinião de que independente de você ser negro, índio gay, mulher, etc., você é um cidadão e deve ser atendido bem e com respeito em qualquer órgão público. Acho importante ter em Manaus e no Estado do Amazonas, organismos de defesa dos direitos do cidadão com estrutura e que funcionem, denunciando, defendendo e fazendo reparar ou sanar o direito ou a irregularidade que foi cometida contra o cidadão independente da sua orientação sexual.

Você já pensou em disputar um cargo público levantando a bandeira de defesa da cidadania para os Gays e as Lésbicas manauaras?

Em 2000 fui candidato a vereador, na realidade foi só por curiosidade e para dar visibilidade ao movimento e incentivar outras candidaturas homossexuais. Não tínhamos nenhum recurso e conseqüentemente sem estrutura para uma campanha, mas deu para perceber que os homossexuais ainda precisam de muita consciência e formação política para eleger um candidato homossexual que realmente esteja comprometido com a nossa comunidade. Tive 275 votos, mas não desisti em 2006 vou sair candidato a deputado estadual e agora para ganhar!.

Como se encontra hoje a Instituição que você preside? Há recursos disponíveis para os Projetos em pauta? Existe o apoio dos órgãos oficiais?

Apesar da sede do nosso movimento ter sido incendiada em 2001, segundo a polícia por causa de um incêndio criminoso, onde perdemos tudo. Hoje a AAGLT tem uma excelente estrutura, trabalham na entidade 25 pessoas remuneradas, estamos desenvolvendo vários projetos que são financiados por agências estrangeiras, órgãos federais, estaduais e municipais. A Prefeitura de Manaus e o Governo do Estado do Amazonas têm que ajudar mais na organização da Parada, esperamos que com o novo governo municipal tenhamos mais apoio em outras áreas.

Qual na sua opinião Adamor, é a pior forma de preconceito contra os homossexuais, a falta de leis específicas que puna os crimes de homofobia ou a própria execução – como se fosse uma pena de morte aos gays?

Na minha opinião o maior problema depois do preconceito é a impunidade, as violações de direitos acontecem, os crimes são cometidos e quando os poucos culpados são identificados e presos, logo são soltos e raríssimos casos são julgados e condenados. A impunidade incentiva a cada dia a violência contra os homossexuais no Amazonas e no Brasil. Leis já existem de sobra, claro que necessitamos de legislações mais específicas, mas se a justiça quisesse a nossa legislação atual já seria necessária para colocar nossos opressores, agressores e assassinos atrás das grades.

Conta quais os planos do líder Adamor Guedes e da sua militância para o ano que está começando agora?

Em 2005 temos muitos desafios, um deles é montar nossa escola profissionalizante que em 2004 já iniciou com cursos de informática, cabeleireiro e de teatro, mas em 2005 pretendemos ampliar e oferecer esses cursos principalmente para nossos companheiros que estão nas ruas batalhando, para que eles tenham uma outra opção de ganhar a vida quando assim quiserem. Além de outros projetos, vamos realizar o I Seminário de Gays, Lésbicas e Transgêneros que Trabalham com AIDS e Direitos Humanos em Belém – PA, o I Seminário Amazônico de Turismo GLBT além de uma super Parada Gay em Manaus que entrará para a história do Amazonas. E claro, continua lutando pelos(as) nossos(as) irmãos homossexuais.

Que mensagem você deixaria para os internautas sobre quem realmente é o Adamor Guedes?

 É uma pessoa simples, persistente, corajoso e que luta por um ideal que é ver o homossexual ser e ter os seus direitos respeitados como cidadão.

PARA CONTATOS COM O ADAMOR:

Associação Amazonense de Gays, Lésbicas e Travestis
Secretaria da Região Norte da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT)
Coordenador Geral: Adamor Guedes
Fones: 92 622.5006 – 622.5006
Rua Lima Bacury, 221 – Centro
E-mail: aaglt@bol.com.br

Fotos do Adamor Guedes disponíveis na Internet:

Manaus to All,Site Fervo,Boite Enigma e Hotel de Selva Ariaú Towers