O sonho do pai era que a Ema fosse professora. Mas a bêbada queria mesmo era cantar. Ser mulher e artista naquela época era sinônimo de prostituição. O velho pai, Seu Matias, morria de desgosto. Nunca teria a filha no magistério e Ema, cada vez mais frustrada, se acabava no conhaque. “Pois é minha gente, eu gosto mesmo é de beber, sofrer e cantar”. Escarrar amor como a Dalva de Oliveira”. Que será da minha vida? Procurar uma nova ilusão? Não sei!”. Eu imitava Ângela Maria: “Tu me mandastes embora, eu irei, mas comigo também levarei este orgulho de não mais voltar e este trapo tu não mais verás”. Vocês já perceberam que Ema é uma mulher “bandida, solta na vida e sob medida”. Mais surpresos vão ficar ao saber que a atriz que vive a Ema no espetáculo “Ema toma blues” é a nossa celebrada travesti Divina Valéria.

Isto mesmo, todo o monólogo dramático é escrito pela dramaturga Aninha Franco caiu como uma luva e se tornou especial para a Diva Valéria – um destaque que é todo seu pela sua rica história de vida. Por ter talento nato para o palco. E pela sua interpretação e voz linda que nos regala os ouvidos. Brevemente, vinda de uma temporada vitoriosa no Teatro XVIII em Salvador, os paulistas a assistirão no Teatro de Arena e sob a direção de Paulo Dourado.

Agora a grande novidade é que já temos em mãos a trilha sonora do espetáculo “Ema Toma Blues” e quem for ao teatro vai poder comprar. A Divina Valéria se esmerou e atendendo aos tantos pedidos foi ao estúdio e gravou uma dezena de canções fantásticas. Lindas páginas musicais que falam de amor, dor de cotovelo, paixão não correspondida e desencontros. Afinal no teatro a Valéria faz de tudo. Canta, dança e faz rir e chorar. Todos saem apaixonados pela Ema e cantarolando as suas canções. A consagração veio com a idéia de por estas músicas num CD.

O CD começa com o hit sucesso da Ângela Ro Ro, a música “Escândalo” do Caetano Veloso e nela a Valéria detona no “eu já arranhei a minha garganta atrás de alguma paz”. Depois ataca de Dalva de Oliveira e Ângela Maria nas respectivas “Que será” do Mário Rossi e “Orgulho” do Valdir Rosa. E a Divina Valéria grava Gonzaguinha em “Explode Coração” e “Sangrando” que é uma ode a voz do sentimento que rasga o peito. Tem também, sonhar mais um “Sonho Impossível” versão do Chico Buarque e do Ruy Guerra, “Sob Medida” do Buarque, “Meu mundo caiu” da Maysa, “Vingança”, “Volta” e “Nunca” três pérolas do Lupiscínio Rodrigues, o segundo hino da França, “La vie en rose” que é a cara da Edith Piaf. Não poderia faltar, já que a sofrida Ema morria do mal de amor, o sofisticado bolero “Soy lo prohibido” de Roberto Cantoral. A Rita Lee marca presença e podemos ouvir de autoria da tia Lee “Só de você” e pra terminar o CD da Divina Valéria, corra ao celular e se lembre de alguém, porque de Jair Amorim Valéria arrasa no “Se alguém telefonar”. Tem um momento lindo que quase nos faz chorar é quando a atriz gesticula ao ar, nos olha nos olhos e solta a voz em “Canção do amor” e “Pour vous” de Jeff Parnell.

Para geração mais nova que não a conhece. A Divina Valéria começou sua carreira artística em 1964, com o show Les Girls na boate Stop, no Rio de Janeiro. Com voz marcante e grande presença de palco, logo ficou famosa no Brasil e no exterior – cantou na Europa, América Latina e Ásia. Também já foi dirigida por nomes como Augusto César Vanucci, Ronaldo Bôscoli e Miéle. No palco, ela, que se iniciou no meio artístico ao lado de Rogéria, no espetáculo Les girls, sempre se superou. Só para lembrar, Valéria foi, por exemplo, uma das personagens mais famosas da folia baiana dos anos 70. Era figura aguardada do trio elétrico do Bloco Jacu. Como cantora Valéria sempre se identificou com as canções de Vinícius de Moraes, Tom Jobim, João Bosco, Aldir Blanc, Maria Bethânia e muitos outros baluartes da cultura nacional. Mas também, já que vive em Paris, presta homenagem à Edith Piaf com um pot-pourri da cantora francesa.

De si mesma a travesti fala: “Nasci artista, posso subir no palco sozinha e colocar a platéia para me aplaudir de pé”, vangloria-se, acostumada a receber elogios desde muito tempo atrás, quando conheceu a fama nos espetáculos capitaneados por Agildo Ribeiro, Miele, Aracy de Almeida, Peri Ribeiro e Bibi Ferreira. Na França é por demais conhecida, onde estrelou shows no Carrossel e no antológico Olympia de Paris. Ao longo da carreira de pouca purpurina e muito suor, ela conheceu e ficou amiga de nomes de muito peso da high society brasileira e internacional. Basta uma espiadela no álbum de fotos para ver estampados sorrisos de Charles Aznavour, Claudia Cardinale, Pierre Cardin, Fernanda Montenegro, Arlete Salles, Bibi Ferreira… Isso sem falar nos políticos para quem cantou. Vejam Valéria assim: A artista. Acostumada ao glamour dos palcos europeus, onde vive há quase uma década, a veterana transformista Valéria não desce do salto nem por um segundo. Nem mesmo sob o sol escaldante de Salvador, local que escolheu para passar férias e matar saudades, após um longo período de ausência.