Luiz Mott, o barulho do ilustre dândi

Regado a vinho argentino em sua vivenda em estilo neo-colonial no bairro dos Barris, almoçamos à sombra da palmeira imperial de 15 anos e 8 metros de um altura. Um lauto cardápio à base de camarões, charutinho de repolho e abobrinha à parmigiana. Confesso que de início me senti mal-ajambrado diante do refinamento do meu anfitrião, mas sua simplicidade derruba qualquer barreira. O Brasil inteiro conhece Luiz Mott pela guerra homérica que trava contra a homofobia [aversão e ódio aos homossexuais]. Uma luta visceral que o identifica como sendo o cidadão gay número um do país. Fato e realidade constatada inclusive pelo Ministério de Estado da Cultura ao reconhecer seu “notório saber” em uma de suas portarias institucionais. Levaríamos tempo enumerando todas as qualificações, títulos, curriculum e a produção intelectual do nosso entrevistado. Não é preciso. Nos últimos 24 anos é quase impossível se desvencilhar a monumental personalidade Luiz Mott, paulista, 58 anos, de sua da ciência e estudos sobre a Homossexualidade. Então vamos a um Mott que poucos imaginam: o dândi das artes.

mott_media-1Dá pra lembrar do “Nenê”?

De fato, eu era assim chamado, carinhosamente, desde que me lembro como gente. Tive uma mãe fantástica: Odette de Barros Mott [SP,1913-1995] mais de 50 anos criando histórias infantis, 70 livros publicados em diversas línguas e mais de dois milhões de exemplares, nome de três bibliotecas infantis no Estado de São Paulo. Recebeu o prêmio Hans Christian Andersen. Era uma coisa bem dela dizer “não somos ilha, mas elos da corrente humana” e realmente, isto funcionava lá em casa. Mamãe teve uma formação católica (JOC) e organizou na sua juventude bibliotecas para operárias e livros e histórias nunca faltaram lá em casa. Eu era um menino bonito mas entristecido pelas alcunhas de “mulherzinha e mariquinha”, xingamentos que eu abominava. Também pudera, “fazer comidinha” era a minha brincadeira preferida. Tive uma adolescência de classe média e assexuada. Foi quando entrou na minha vida o donzelo, digo, o modelo de santidade São Domingo Sávio, o santinhho cujo o lema era “ antes morrer do que pecar” . Do bairro do Sumaré, onde morávamos em S.Paulo, mudei-me para Juiz de Fora, em MG, para o Seminário dos Dominicanos, onde aprendi a falar francês, a me familiarizar com artes e gostar de música clássica. Integrei o “Coral dos Pequenos Cantores de São Domingos” e dentre as várias tournées cantamos na inauguração de Brasília. No milênio passado…

marccelus_entrevista_mott_00071-1A Bahia na rota do Mott, foi previsível?  

Nunca me senti tão desejado como na Bahia , quando vinha passar férias e curtir o carnaval nesta cidade. Aqui era o lugar do mundo em que eu me sentia realmente cobiçado. Vim fascinado pelos negros. Isto nos meados dos anos 60, quando fazia Ciências Sociais na USP. No final da década de setenta tomei coragem e mudei para Salvador, atraído também pelo barroco e por sua encantadora natureza tropical. A minha primeira aparição na mídia local foi acadêmica. Em minhas pesquisas nos Arquivos resgatei num documento do século XVIII o cardápio diário de um prisioneiro abastado durante os três meses em que amargou na masmorra. Fiz uma apresentação no IGHB – Instituto Histórico e Geográfico da Bahia e mereci por este trabalho considerações elogiosas do jornalista Jorge Calmon, um poderoso formador de opinião que durante os últimos trinta anos esteve à frente do maior veículo de comunicação do norte e nordeste, o Jornal A Tarde. Também as atenções foram recíprocas para com a cidade do Salvador, atentei para o fato do lastro de informações contidas em arquivos diversos, tipo o Cúria da nossa arquidiocese onde cheguei a manusear e a transcrever informações inéditas do livro “Devassas do Sul da Bahia” de 1813 o que me inspirou a publicar “Pecados da Família na Bahia de todos os Santos”. Foi interessante pra mim o conhecimento do predomínio de concubinatos, adultérios e infidelidades nas mais sagradas famílias da terra.

marccelus_entrevista_mott_00017-1E os Barris? Você gosta do neo-colonial que ainda resiste no bairro?

A minha casa é uma construção de 1935. Ela faz parte e com certeza é uma das unidades da reurbanização dos Barris empreendidas pelo Engenheiro e Prefeito de Salvador, Pinto de Aguiar, o mesmo que construiu a Vila Operária de Itapagipe. Os Barris ainda destacou-se por concentrar os melhores exemplares dos novos estilos que dominaram no Brasil nos anos 30: o Art-Decô e o Neo-Colonial. O próprio Lucio Costa, colaborador de Niemayer, antes de optar pela arquitetura moderna, foi grande defensor do neo-colonial. Minha casa é deste estilo, assim como a bela sede do Instituto Feminino da Bahia, no Politeama. Não permiti, mesmo fazendo uma pequena intervenção para a adaptar minha moradia á nova realidade funcional dos meus novos escritório e biblioteca pessoal, que fosse desfigurada a sua originalidade. Conservei no telhado da cobertura as antigas telhas da Cerâmica São Caetano, vindas de navio de São Paulo.

marccelus_entrevista_mott_00064-1Conservador como o seu fogão?

Você está falando do meu Fogão Dako, ainda em uso há 35 anos desde o meu primeiro casamento? Sim, acho que sou tão conservado e conservador quanto ele. Coisas que têm qualidade e que funcionam bem, não se mudam, a não ser que seja pra melhor. Sou um homem gay conservador em muitos aspectos existenciais. Sempre defendi o casamento gay, enquanto outros militantes me acusavam de neo-burguês. Adoro a música barroca. Não gosto de arrumações assimétricas, coisas de acrílico, pagode, tempero industrializado. Se faltar luz, sei de cabeça a localização de cada objeto da minha casa. Mas não se enganem que tive sempre meus momentos críticos de confrontação com o status quo. Fui um dos primeiros homens neste país a furar a orelha. Em 1977, na véspera do meu divórcio, quando dava um curso de pós-graduação no Equador, furei eu mesmo minha orelha direita e coloquei uma bolinha de prata. Apesar de discreta, chamava enormemente a atenção, as pessoas apontavam, as crianças me perguntavam se eu era mulher, apesar da barba cerrada que sempre usei desde meus 18 anos. Aquele brinquinho parecia um ultraje pois afrontava de forma insolente ao machismo. A ousadia sempre foi uma característica marcante em minha vida e personalidade. Alguns pais-de-santo dizem que sou de Xangô, orixá destemperado no falar, glutão. De fato, adoro cozinhar, mas sobretudo, comer bem! [Veja sua receita do “Espera Marido” no final] E como todo filho de Xangô, também dizem que vou morrer pela boca… Como sou ateu militante, não acredito piamente nestas profecias, embora não deixe de reconhecer certas similaridades com as pessoas de Touro e Xangô. Comigo é assim: se durante o dia alguma pendenga não foi resolvida, durante a noite rumino tranqüilamente a melhor reação e ao amanhecer, papel e lápis á mão, delineio uma boa argumentação. Sempre dou resposta, mas fico por aí, viro a página. Gosto de perdoar, assim como freqüentemente peço perdão. Procuro respeitar ao máximo a diversidade de opinião, embora quando tenho certeza científica sobre um fato, aí sim, não abro mão, pois fiz da ciência minha religião, minha régua e compasso. Minhas opiniões e estratégias nem sempre são aceitas, muito mais por ressalvas à minha personalidade forte – que muitos confundem com exibicionismo e autoritarismo – do que pelos meus argumentos sólidos e embasados em dados empíricos e respaldo científico. Mas sempre me reservei o direito de questionar as coisas. Rancor e acúmulo de ódio em minha vida não existem. Ainda guardo do menino que fui a alegria, a curiosidade, a simplicidade. Sou brincalhão e extrovertido. Com o tempo e a idade o jogo de cintura me casou muito bem com as novas tecnologias e algumas outras interessantes concepções existenciais. Recuso-me porém ser escravo do telefone celular e perder o romantismo culinário assassinado pelo micro-ondas.

mott_media2-1Seria o Luiz Mott o maior colecionador da Faiança Weiss?

Quando comprei meu primeiro vaso assinado Weiss, nem sabia o que era faiança: “louça de barro ou pó de pedra esmaltado ou vidrado”. Por puro acaso comecei esta coleção. Comprei em 1990 uma peça no brechó “Ada Tem de Tudo” no Gravatá, no centro de Salvador. Notei que a bela faiança estava assinada, e por curiosidade e também por admirar a grande perfeição e beleza nestes objetos assinados, comecei a adquirir mais e mais. Nunca, apesar dos esforços consegui identificar o significado dos tantos números inscritos ao lado da assinatura WEISS no fundo das cerâmicas. Quero acreditar que se tratam de séries que identificam a autoria – o pintor que não foi um único ao longo do tempo – e a série do objeto. Minhas peças datam dos anos 30 a 70.Tenho mais de trezentas peças, agrupadas em faianças utilitárias (queijeiras, bombonieres, fruteiras, saleiros, serviço de mesa e chá, etc) e faianças decorativas (jarros, floreiras, pratos de parede, cache pot, etc). No início consegui comprar Weiss bem barato, mas com o passar dos anos, depois que levantei a lebre nas principais feiras de antiguidade do sul maravilha, o produto rareou no mercado e hoje um vaso marccelus_entrevista_mott_00098-1Weiss custa de 100 a 200 reais. Inclusive já me deparei com prováveis falsificações e meu olho clínico me diz que algumas peças assinadas não são verdadeiras. Em 1995 visitei o espaço da Fábrica Weiss em São José dos Campos/SP. Estive com a mais antiga funcionária que me mostrou as oficinas e o atelier. Tirei fotos dos fornos e comprei mais algumas peças, mais modernas, feitas à partir dos anos 80 para a exportação – dirigidas ao mercado americano. Tenho algumas escritas “Made in Brasil” ao lado do carimbo Weiss: infelizmente, estas já não apresentam mais, a beleza e a consagradora estética da confecção passada. Tenho pra mim que seria louvável para a cidade de São José dos Campos deter o monopólio do espólio cultural da Weiss no Brasil. Quero acreditar que se trataria realmente de uma iniciativa inovadora e coerente a construção em São José dos Campos um Museu ou Centro Cultural que valorizasse o trabalho artístico da família Weiss. Eu cheguei a encontrar Weiss vendido até em Lisboa, na célebre Feira da Ladra, como também vi peças nos antiquários e feiras de antiguidades no Rio Grande do Sul, Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro. O que prova a grande circulação desta artística porcelana. Num futuro pretendo fazer uma mostra destes objetos com um catálogo para que se possam conhecer a excelência desta arte paulista.

marccelus_entrevista_mott_00094-1Quais as suas outras coleções?  

Tenho uma coleção de quadros feitos de asas de borboletas na década de trinta [sei que não é nada ecológico hoje em dia] inclusive tenho pena das borboletas mortas. São trabalhos de fina estampa. Rico em detalhes e que me encantam por – alguns deles – retratarem cenas pitorescas de Salvador, Rio de Janeiro, dos pinheirais do Paraná. Tenho outra coleção que certamente ser-me-á útil quando chegar a meus 80 anos: minha coleção de bengalas com acabamentos em marfim, chifre e madeira nobre entalhada. Há outro tipo de faiança que comecei recentemente a colecionar: a Cerâmica Mauá. Mais simples na decoração e diferentemente da Weiss, destinada sobretudo às classes operárias, a Mauá encanta pela sobriedade e beleza de suas linhas. Foi muito ativa entre os anos 40-60. O carimbo com o “trenzinho” no verso das peças é sua marca registrada. Coleciono também os cristais Fratelli Vita, lapidados na Bahia nos anos 40, peças maravilhosas que não ficavam nada a dever aos cristais da Boêmia. São vasos e cálices maravilhosos, sobretudo os cor de sangue, demonstrando a excelência artística e a história de glória desta industria ítalo-baiana. Gosto também muito de jóias de coral, sobretudo do coral do Mediterrâneo. Possuo uma boa coleção de colares, figas e balangandãs de coral. Depois da faiança Weiss, minha maior coleção é dedicada ao Sagrado Coração de Jesus. Já não há espaço livre nas minhas paredes para mais quadros e imagens dos sagrados corações. Pretendo escrever uma biografia não autorizada sobre este culto, um dos mais neuróticos e contraditórios do catolicismo. Em meu livro Rosa Egipcíaca, Uma santa africana no Brasil (Editora Bertrand, 750 páginas) conto como essa ex-escrava, prostituta e depois grande santa em Minas Gerais e no Rio de Janeiro foi a maior vidente e propagandista desta devoção.

marccelus_entrevista_mott_00095-1Houve também um tempo em que você se dedicou muito a fotografia.  

Verdade. Trouxe uma maravilhosa Canon da França nos inícios dos anos 70. Nesta época, fotografei muito minhas duas filhas durante a infância, modéstia à parte, fotos maravilhosas. Registrei também as feiras portuguesas e extasiado com as construções art-decô não deixei passar em branco as imagens arquitetônicas de Marilia, no interior de São Paulo, cidade onde viviam minhas filhas depois do divórcio. Como documentação realista, fotografei muitos gays e travestis assassinados, alguns na morgue do Instituto Médico Legal baiano, um dos cenários das minhas investidas em pró da denúncia da violência anti gay. Fiz muitas fotos de travestis barbaramente assassinados nas ruas de Salvador. A brutalidade dos crimes sempre me chocou e achei que documentando tais atos de barbárie haveríamos de ter a munição precisa e comprobatória da homofobia reinante. Também cheguei a fazer, na década de oitenta, uma exposição no Foyer do Teatro Castro Alves sobre o bairro onde ainda hoje moro: “Os Barris do colonial ao contemporâneo”.

marccelus_entrevista_mott_00096-1O Grupo Gay da Bahia foi um filho planejado?

Nasceu de um momento de dor e ultraje. Num entardecer nos finais de 1979, estávamos eu e meu namorado Aroldo vendo o por do sol atrás do Farol da Barra, quando um brutamontes machão vendo que éramos homossexuais, me tacou o maior bofetão na cara. Pra mim aquilo foi o cúmulo da humilhação. Eu nunca tinha apanhado na vida, o máximo de violência sofrida foram algumas palmadas de minha mãe com o livro “Tesouro da Juventude”… Não suportei aquela dor da alma. Como poderia existir tanto ódio nas pessoas contra o amor entre pessoas do mesmo sexo?. Daquele instante em diante decidi criar algum tipo de organização que defendesse nossos direitos enquanto homossexuais, como já existia o grupo Somos em São Paulo. Não deu outra: aí fundei o Grupo Gay da Bahia. Coloquei um anúncio no Lampião com meu endereço residência e em minha própria casa reuni os primeiros 17 gays baianos em torno desta iniciativa. De lá pra cá, vinte e quatro anos de resistência e vitórias memoráveis. Passei diversas vezes maus bocados em relação à minha integridade física. marccelus_entrevista_mott_00097-1Já tentaram me seqüestrar na porta do Teatro Maria Betânia quando disse que Santos Dumont era gay e quando levantei a lebre sobre a possibilidade de Zumbi dos Palmares ser gay, quebraram os vidros e picharam meu lindo carro russo Lada com a mensagem: “Zumbi vive”. Nunca esmoreci. A cada dia a sua agonia como diz o misógino apóstolo Paulo e a minha luta de agora é contra essa discriminação mesquinha à minha pessoa pela Assembléia Legislativa da Bahia, negando-me o título de cidadão baiano. Mas guardo o bom combate e mantenho a fé na sociedade justa e livre de preconceitos. Faço a minha parte e estou contente sendo o que sou!

Para saber mais consulte a página pessoal do antropólogo Luiz Mott:  www.luizmott.cjb.net  luizmott@ufba.br  (71) 3322. 2176 e 3322.2552

“Espera Marido”  uma deliciosa sobremesa de Mott pra você.   Coloque numa panela grande e funda para ferver:  1 Lata de Leite condensado  ½ Litro de Leite  Cravo, Canela e Casquinhas de Limão. Mexer bem para misturar os leites.  Enquanto ferve, bata em neve 2 claras, acrescente 3 gemas e bata bem.  Despeje delicadamente os ovos sobre o leite fervendo, reduza o fogo e deixe ferver mais cinco minutos, SEM MEXER. Só então, cortar delicadamente os ovos em 8 pedaços e virar o lado de cima para baixo. Ferver mais dois minutos, desligar. Colocar num pirex, servir gelado: dá seis porções.

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