As Mareatas Gays

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“A água me contou muitos segredos, refez os meus desenhos, trouxe e levou os meus medos…a vida que me é dada eu e água” diz por mim Caetano e testemunha para a história do movimento gay o mar da Baía de todos os Santos.

mareatasgays003Eram modestas mas emocionantes. Pouca gente no início. Logo nos primeiros anos da década de oitenta quatro gatos pingados. Algum tempo depois um pouco mais de gays e de organização. Assim nasceram as mareatas do Grupo Gay da Bahia. Surgiu da cabeça do Luiz Mott. Queríamos mostrar a face da história não contada. Tinha a coisa do vetusto Forte de São Marcelo desafiando o nosso olhar para a grande obra do Governador Gay Diogo Botelho (1618), praticante do “amor que não ousa dizer o nome” e denunciado peloTribunal do Santo Ofício em nossa Salvador colonial. Bem no sentido de Bahia rima com sodomia… nos seus desvendados e nefandos pecados. Uma hipocrisia secular que tentávamos com as nossas irreverentes e até ingênuas atitudes afrontar.

As ditas mareatas gays do GGB consistiam em navegar pelo mar e circundar o tombado monumento militar.Era todo um ritual bem estudado e planejado – até licença ao Iphan – para se dar a volta ao forte pedíamos. Alugávamos um barco na rampa do mercado modelo [ainda não existia o atual terminal marítimo do comércio e podiam ser vistos ao lado da antiga alfândega e bem no cais alguns dos extintos saveiros no atracadiço]. O GGB muito pobre não dispunha de dinheiro sobrando e contava – para atos em que tínhamos que pagar algo mais caro, como o aluguel da nau – com a colaboração financeira do Mott e também de algumas merrecas que sobravam da coleta dos domingos quando passávamos a sacolinha recolhendo o “dízimo gay”.

mareatasgays002O sentido do evento era reunir os homossexuais diante de um fato histórico, de criar uma áurea de coletividade e de valorizar-lhes a auto estima e acima de tudo, chamar a atenção da imprensa. Numa fase em que na Bahia os gays eram afrontados pelas difamações e calúnias do principal jornal, éramos em meados dos anos 80 os “ditos culpados e apontados como os principais transmissores da AIDS”. Enfrentávamos uma guerra de nervos constante. Bastante humilhação nas ruas e exacerbação do preconceito. Certos setores da mídia na Bahia nos tinha aversão, indiferença ou desprezo e a nossa saída. A grande investida do GGB naqueles difíceis anos foi manter-se coerente, politicamente correto e de aprofundar-se cada vez mais nos postulados científicos que então nos garantiram o conhecimento e as armas de defesa contra os reacionários, homofóbicos e ignorantes de plantão.

mareatasgays005Daí surgiram as mareatas, as manifestações em frente ao Fórum contra algum tipo de pendenga antigay, presença de homossexuais organizados nos desfiles da Independência da Bahia e do Brasil, e em tantas outras atividades públicas pondo à tona o enxergar da homossexualidade. Não me lembro de nada ficar sem resposta quando atacados ou vilipendiados pela midia bairrista da soterópolis. E assim com altivez, coragem e sendo “bois de piranha” do futuro melhor, íamos furando o cerco dos antipáticos à causa.

Fazíamos e divulgávamos um release bem explicado sobre a mareata e no dia do evento, geralmente uma véspera de feriado lá estávamos nós. Com flores e palmas de coqueiros nas mãos, de olho no mar torcendo pra não chover. Nos sentíamos triunfantes em nossas pequenas conquistas. Líamos algo, alguém inventava dar às mãos, cantar um hino oficial, proferir um rápido discurso, talvez sob o ritmo de algum instrumento de percussão, levávamos faixas e cartazes do ativismo homossexual e lacrávamos em muita fechação. A união da irreverência com o políticos nas mareatas se davam muito bem. Num dado momento e bem próximo a fortaleza atirávamos as flores ao mar. Batíamos palmas e gritávamos palavras de ordem do tipo “É bom, é legal e normal ser homossexual”, “Diogo Botelho é o nosso herói”. “Viva os Gays”, etc… Dar pinta e descontrair durante a curta viagem era o melhor da festa. Repito. Tudo era muito divertido. Tenho particular saudade do lúdico enlace gay com o oceano das mareatas.

mareatasgays008O acontecer do navegar gay foi real e o que podíamos fazer naquela época para chamar a atenção sobre nós. Este cambio cultural do Gay Pride e de grandes passeatas gays soavam como coisas distantes. Eu as sentia como uma sofisticação americana bem no campo do intangível. Quando muito abríamos a página de uma revista para mostrar as gegebetes [como eram carinhosamente conhecidos os membros do GGB] uma foto do Gay Pride em San Francisco ou Nova York. Pra gente até mais da metade dos anos 80, não sabíamos de internet, o nosso luxo era disputar uma máquina de datilografia elétrica que o GGB comprou ou ganhou de um visitante gringo e abonado. A informação não era tão rápida e a TV nos massacrava, falava tanto de doença Gay ou peste Cor de Rosa que enchia o saco. Mal as bichas saiam da reunião do GGB – altivas e eufóricas – lá vinha um baixo astral e na Barroquinha já gritava ” Lá vai a AIDS”, “Pega ela aí”. Tudo que sabíamos do sério da SIDA pousava na caixa postal 2552 [ só o Mott tinha a chave, poliglota, traduzia tudo e eu sempre vibrei às 4as. e sextas com chegada do mesmo a sede do GGB às 20:20 com seu “bocapiu” de palha entupido de novidades de fora].

mareatasgays013Tudo vinha nas correspondências, postais, artigos, cartas e nos muitos intercâmbios de informações e contatos internacionais do Luiz e também das revistas generosamente nos ofertadas como Gai Pied e Advocate. No Brasil ainda tínhamos e folheávamos bastante o nosso acervo do então já extintoLampião doado pelo João Silvério Trevisan e de raras revistas informativas do tipo ROSE que as bibas deixavam pro grupo com medo de escondê-las em casa.

Não tínhamos esta cultura de terceiro setor, as condições materiais de hoje, leis e reconhecimentos públicos mais abrangentes, recursos governamentais e profissionalização da militância. Eram tempos de muita luta para se impor uma organização gay. O atual momento é de jogarmos duro e apoiados pelas novas invenções e tecnologias nos aproximarmos cada vez mais de quem ou do que forma opinião, angariarmos mais direitos e avançarmos. Como o fazíamos jogando flores ao mar da Bahia.

Na vida que me é dada, eu e água. Os Gays e o mar. Vencemos com as Mareatas. Tenho vaidade e orgulho pelas conquistas do MHB e espero não naufragarmos jamais.

VEJAM MAIS FOTOS DAS MAREATAS :

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Para saber Mais do Grupo Gay da Bahia clique no link abaixo:

http://www.ggb.org.br

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